– Desejava esta entrevista – elucidou a jovem com desenvoltur a, –
porque acredito que a minha história poderá ser útil a muitas
pessoas.
– Será, então, um prazer ouvi -la e anotar suas informações. –
Respondeu, serena, a venerada trabalhadora da mediunidade.
– Muito cedo – prosseguiu, estimulada pela aquiescência da
interlocutora – experimentei o próbio decorrente da orfandade
dos pais vivos. Sem saber quem era o meu genitor, vendeu -me
minha mãe para os trabalhos humildes em uma casa de má
reputação.“Cuidada com o desprezo que se reservava aos animais pestosos, fui
relegada a um cômodo ínfimo, no quintal da Casa de ilusões a qual
fui arrojada”.Silenciou por um pouco, ordenando as idéias e deu curso ao
pensamento:– Não sei quando ocorreu a minha sedução, ou melhor, não me dei
conta da inditosa ocorrência, no infeli z local de trabalho… A
verdade é que passei a objeto de loucura, transformando -me
também, em serviçal de corrupção…
“Ao completar dezesseis anos, tive um estranho sonho com um jovem
louco que me pedia para fugir dali.”
“É claro que não pude atendê-lo.”
“Um mês depois voltei a sonhar com a mesma personagem, que me
falava com estranho, profundo carinho, concitando -me à fuga, à
redenção.”
– Você não pertence a este lugar – falou-me com indescritível
tristeza. Mesmo no sonho, chorei copiosamente. Eu també m sabia
que estava no lugar errado… Que fazer, porém?
“Ao acordar fui sacudida pela decepção da realidade…”
“Já estava a esquecer-me dos sonhos encantadores, quando se
repetiu pela terceira vez. Certamente era mais do que um sonho,
tal a nitidez do encontro, a lucidez dos diálogos.”
“A personagem, Walter, como me disse chamar -se, recomendou-me que
me dirigisse a outra cidade, deu -me um endereço, aconselhando-me a
narrar o fato à sua genitora, a quem eu deveria rogar acolhida.
Era a minha última oportunidade.”
“No dia, seguinte, certifiquei -me da existência da cidade e
resolvi-me por viajar.”
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“Solicitei uma licença e dirigi -me ao lugar citado. Em lá
chegando, não tive dificuldade em encontrar o endereço. Estimulada
pelas coincidências, bati à porta da casa e roguei um emprego…”
“Admitida sem maior relutância, comecei por serviços modestos de
limpeza, com um quarto arejado, alimentação e salário. digno.”
“Posteriormente vim a saber que o casal, dono da residência,
padecia a angústia da perda do fi lho único, que fora vítima de
lamentável desastre automobilístico, meses antes…”
A narradora fez uma pausa. Apresentava -se emocionada.
Recompondo-se, deu prosseguimento à narração.
– Descobri que ali havia o hábito salutar da prece em conjunto.
Convidada a participar aquiesci. Um mês após haver sido admitida
no serviço da casa, chamei a senhora e minudenciei -lhe todos os
acontecimentos. A ama ficou estarrecida, surpresa… Convidou -me
a examinar um álbum de família, no qual não tive problema em
identificar o jovem louro dos meus sonhos…
“Informando o patrão, este procurou assegurar -se do meu passado e
constatando o meu desejo de reabilitação, prontificou -se com a
esposa a ajudar-me.”
“Fui convenientemente tratada com médico dedicado e encaminharam –
me à escola noturna.”
“Com o tempo, a mediunidade desabrochou -me possibilidades, e
Walter, por diversas vezes, manteve com os pais, jubilosos,
abençoados intercâmbios.”
“Fui transferida para a intimidade da família e por fim adotada
como filha…”
“Passaram-se oito anos… Concluí o ginásio e o colegial com
esforço inaudito, utilizando-me dos artigos 99 e 101 da Lei do
Ensino Médio. Hoje curso a Faculdade de Direito, nesta cidade onde
fui desventurada e na qual me preparo para o ministério do bem
futuro.”
“Claro que retornei ao recinto da desdita, a fim de libertar
menores outras que ali estavam em regime de escravidão.”
“Walter prossegue ajudando-me.”
“Por meu intermédio declarou, que no passado ambos mantivemos uma
Casa de ilusões e que a minha atual genitora fora-nos uma das
maiores vítimas…”
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“Agora a minha redenção deve ensejar a libertação de outras
vítimas do anestésico mentiroso da corrupcência e da perdição
carnal.”
Enquanto falava, Walter, o amor renovado, assistia com esperança
no futuro quando, juntos, após a separação inadiável, poderiam
unir-se para verdadeira felicidade.
– Deus seja louvado minha filha! – Completou a ouvinte
interessada, e sinceramente emocionada com a fascinante
história.
*
A queda representa experiência para quem des eja prosseguir de pé.
Cair é lição; permanecer tombado significa acomodação.
O Senhor nunca indaga quem se é, mas o que cada um tem feito de si
mesmo e da vida, em relação ao próximo e ao futuro.
Medita e faze a sua reparação hoje e agora, enquanto te inspiram
os verdadeiros amores espirituais que te aguardam além do túmulo.

Postado por Benoni Martins, em 08/12/19, na Rede Espirit Book.