Há muita coisa perturbadora em Pastor Cláudio, documentário de Beth Formaggini que estreou na quinta, 14. Diante de um quadro com fotos de vítimas da ditadura militar, o hoje pastor – ex-delegado e agente do SNI, Serviço Nacional de Informações, e do Dops, do Espírito Santo –, às vezes nem se lembra do nome das pessoas, mas é categórico. “Esse, eu matei”, “Esse, incinerei o cadáver”.

E Pastor Cláudio conta isso com frieza, essas histórias que pertencem a uma outra vida, ou outra pessoa. Desculpa-se – “Eu era uma mula, não tinha visão, só obedecia.” Reflete – “A tortura não acaba porque não teve punição para ninguém”.

Nesse sentido, o público que vê Pastor Cláudio deveria assistir também a O Silêncio dos Outros, de Almudena Carracedo e Robert Bahar, produzido pelos irmãos Almodóvar, sobre violações dos direitos humanos em outra ditadura, a de Franco, na Espanha. Ambos os filmes trazem embutidas discussões sobre a Lei da Anistia, nos dois países. “A lei de 1979 permite interpretações ambíguas. Desaparecimento político é um crime eterno. Violações de direitos humanos não deveriam prescrever. Pessoas como o Cláudio deveriam estar presas ou, no mínimo, ser julgadas”, diz a diretora de Pastor Cláudio. No Brasil em que um presidente se elegeu fazendo o elogio da tortura durante o regime militar, um filme como o de Beth corre o risco de atrair somente um tipo de espectador já (in)formado sobre tudo o que conta o criminoso pastor. Tudo? Em seu diálogo com o psicólogo e ativista de direitos humanos, Eduardo Passos, Cláudio Guerra confirma muita coisa que já havia contado em seu depoimento à Comissão da Verdade, em 2014. Vê-lo falar abertamente frente às câmeras é diferente, argumenta a diretora.

“A forma como ele fala torna ainda mais terríveis as violações que foram cometidas. É a verdadeira banalidade do mal, a que se referia (a teórica alemã) Hannah Arendt.” Eduardo Passos virou especialista no apoio a pessoas que sofreram violência do Estado. Pois a ideia é essa. Não é a violência de um maluco isolado, mas de toda uma estrutura que foi montada no País, durante o regime militar. Pastor Cláudio admite que recebeu treinamento de especialistas norte-americanos, e que havia intercâmbio entre os serviços de segurança do Brasil e dos EUA. Para maiores informações, o cinéfilo dispõe de Estado de Sítio, o longa de Costa-Gavras com Ives Montand no papel de Dan Mitrione, o agente do FBI que foi contratado para treinar as polícias do Brasil e do Uruguai, ensinando métodos de tortura que se disseminaram nos dois países, resultando em inúmeros casos de violações de direitos humanos. A entrevista de Beth foi gravada durante quatro horas em 2015 e o que mais impressiona, ainda hoje, é ver Guerra falar sobre a ‘irmandade’.

Teoria da conspiração – empresários financiaram o aparelho repressivo da ditadura militar, isso também não é novidade, basta assistir a Cidadão Boilesen, de Chaim Litevski, sobre o empresário dinamarquês radicado no Brasil que arregimentou apoio para a ditadura e fundos para seus sicários. A novidade, mas será verdadeiramente novidade, é que pastor Cláudio diz que os financiadores do golpe de 1964 continuam na ativa, e são os mesmos. Ele teme a ‘irmandade’, mas diz que possui provas que serão acionadas, se algo lhe ocorrer, ou a alguém de sua família. É o aspecto mais polêmico – o mais forte? – de Pastor Cláudio. Para Beth Formaggini, tudo começou quando gravava depoimentos para outro documentário. Ela encontrou uma mulher que falava com muito amor do marido desaparecido. Ficaram amigas. Mais tarde, Beth encontrou referências sobre esse homem no depoimento de Cláudio Guerra à Comissão da Verdade. Teve medo de confrontá-lo com a viúva, mas pediu a essa mulher, que não conseguiu enterrar seu ente querido, que formulasse algumas perguntas para o pastor. Veio daí a base para o filme. Tão forte é o tema que quase não sobra espaço para discutir as opções estéticas de Beth. Afinal, trata-se de um filme. Naquelas quatro horas de entrevista, planejadas em detalhe anteriormente, ela previu tudo. Usou quatro câmeras. Nada lhe escapa. Beth aprendeu muito com Eduardo Coutinho, com quem trabalhou. Não importa o que diga o pastor, seu arrependimento, deveria estar pagando por seus crimes monstruosos.

 

Nosso comentário: o que é triste e lamentável é termos um presidente que fez a apologia de um torturador da ditadura quando do impeachment de Dilma Roussef, além de dizer que não houve ditadura militar no Brasil e que durante esse período nunca o Brasil cresceu tanto…

Pior do que isso tudo, é que, mesmo após todas esses e outras manifestações desse senhor em prol do militarismo ainda conseguiu mobilizar uma “tropa de elite” através da qual conseguiu eleger-se.

Agora é só aguardar o rumo dos acontecimentos…

Alberto Maçorano