Triste história a minha. Vim a esse mundo para mendigar. Mendigar o pão, mendigar o olhar de alguém, mendigar abrigo.
Mendigo que fui, mendigo que sou.
Mendigo eu maldisse a Deus, ao mundo, às pessoas.
Certa feita estava eu à porta de uma igreja mendigando. Aproximou-se de mim uma moça segurando as mãos de uma menina linda. A menina estendeu os braços para mim, ao que a mãe retrucou: “Filha vamos, é um mendigo, não precisa de nada… ele ganha tudo…”.
Eu me assustei! Como ganha tudo? Não ganho nada! Não me dão moedas para me ajudar e sim para se verem livres de mim. Nunca vi ninguém me olhar com amor e respeito. Só aquela menina.Passou o tempo e eu envelheci. Fui levado para um albergue publico, e lá vi aqueles olhos daquela menina, agora moça. Era uma enfermeira daquele albergue.
Ela se aproximou de mim e perguntou: O quê o senhor quer de mim? Alguma coisa que eu possa dar? Uma sopa, um copo d’agua?
Eu perguntei àquela enfermeira. De onde conheço seus olhos? Ao que ela me respondeu: Da porta daquela igreja. Eu não me esqueci do senhor e hoje eu posso lhe dar o que o senhor quiser.
Eu lhe disse: Não quero nada, porque eu já ganhei tudo com sua dedicação.
Daí a alguns dias a morte com seu semblante de zombaria veio me levar.
Eu me assustei e pedi que me trouxessem aquela enfermeira. Ela veio com seu semblante doce, se aproximou de mim, tomou minhas mãos e quando parei de respirar ela fechou meus olhos.
Os céus se abriram para mim, eu estava feliz e podia descortinar um lugar de muita paz onde eu nunca mais precisei mendigar.

 

Carlos, ou melhor, Cacaio

* Marco Antonio Correa (blog espírita)