Enquanto seres encarnados todos nós estamos sujeitos a várias Leis. Desde as Leis materiais que tentam regular a vida dentro do universo manifestado, como é o caso da Lei do Carma, até às Leis Espirituais 

que nos impulsionam para fora deste universo através da sintonia com a Vida que nele se manifesta.

A Lei da Atração, tão divulgada hoje, é uma Lei que opera dentro do circuito da Mãe e por isso mesmo é uma Lei material, própria do universo planetário aonde nos encontramos encarnados. Essa Mãe, que é a substância lúcida do universo manifestado, e por isso material, reage aos nossos pensamentos e sentimentos, que são energia, devolvendo-nos aquilo que desejamos, não na forma de um impulso espiritual ou de uma expansão de consciência, já que isso é do domínio do circuito do Filho, mas através das formas por nós desejadas. Essa Lei possibilita, unicamente, pela compreensão do seu funcionamento e dos seus mecanismos de acção e reacção, encontrarmos um equilíbrio de forças dentro deste universo a que chamamos Planeta Terra.

Esse equilíbrio, que não é vertical, mas apenas uma forma de deslocar forças e organizá-las, permitindo-nos aplainar as arestas do caminho. Contudo, embora esse aplainar das arestas possa até ser importante num momento específico do nosso processo evolutivo, buscar essa Lei para constantemente retirar desse caminho todas as arestas será certamente uma armadilha na qual não devemos cair.

Se eu retiro do caminho todos os obstáculos que a Vida me traz, e que estão ali para que eu possa amadurecer como ser espiritual, a possibilidade desse crescimento e desse amadurecimento é cancelada. Eu fico dentro de uma bolha hipnótica criada pelos meus próprios desejos, e ali, na ilusão da felicidade material, estagno todo o meu processo espiritual na liberdade que deixarei de ter.

É como se nós fossemos este cão de rua, que de tão desesperado pelos caminhos da sua vida, emite para essa grande Mãe o desejo de ter todos os dias comida no prato e uma casa limpa para dormir. E essa grande Mãe, como qualquer mãe, vendo a sinceridade do seu pedido, satisfá-lo enviando alguém que, passando pela rua, o recolhe. A partir de então esse cão irá passar a ter todos os dias comida no prato e uma casa limpa onde morar. Só que junto com a satisfação desse desejo, que aparentemente melhorou a sua vida, vem também uma coleira, uma trela e os limites do muro da casa de alguém que passou a ser o seu dono.

Buscar a Lei da abundância é sair do circuito viciado da Lei da atração, é confiar integralmente na vontade do Pai, sem desejar coisa alguma. É ser este cão de rua, livre, e acreditar que o universo vai trazer tudo aquilo que ele necessita para o seu próprio crescimento, sejam coisas boas ou não. Se eu retiro desta equação as coisas desagradáveis, eu estagno completamente o meu processo espiritual, pois dentro de um plano dual, a evolução faz-se pelo confronto dos opostos. É assim que lapidamos a nossa pedra bruta em cristal polido e reluzente.

É certo que nessa travessia do deserto, nesse caminhar descalço pelas areias escaldantes, de pés pelando com o calor, sequiosos de água, sem forças, é certo que encontrar um pequeno oásis onde possamos pousar os pés em água fresca, beber de um coco e comer algumas tâmaras poderá ser uma pausa agradável e por vezes necessária. Mas atenção, aquele oásis não é a terra prometida, essa encontra-se no fim do deserto. O perigo da Lei da atração é ficarmos ali como se este fosse o lugar de chegada e, de pés na água fresca, de coco numa mão e tâmaras na outra, recostados numa palmeira, deixarmos passar ao lado toda a nossa vida e toda a razão de ser de aqui estarmos encarnados.

Que possamos compreender que não estamos encarnados apenas para atrair pessoas agradáveis. Nós estamos aqui para servir e servir o plano evolutivo é aceitar integralmente aquilo que vida nos traz. Se eu retiro do circuito, através da Lei da atração, as pessoas que me incomodam, a quem é que eu estarei a ajudar? Sim, porque Jesus poderia ter ficado junto dos apóstolos e ali não haveria crítica nem julgamento. Mas ele foi para o meio dos “pecadores”, dos gentios, daqueles que o criticavam porque isso era servir a Deus. Se ele invocasse a Lei da atração para trazer para a sua vida apenas coisas boas e as pessoas agradáveis, hoje nada saberíamos desse Jesus que teria ficado lá num qualquer monte da palestina falando para o seu grupo restrito de eleitos.

Vamos parar de nos iludir com promessas de uma espiritualidade fácil, porque isso é algo que não existe, não porque o caminho espiritual seja difícil, não, ele é muito simples. O problema é que nós estamos atados a tanta tralha civilizacional e reencarnatória, que quando nos é proposto trabalhar tudo isso de forma consciente e frontal nós fugimos. E fugimos porque, soltar aquilo que não queremos largar, implica sofrimento e ninguém quer sofrer. E como ninguém quer sofrer recorre-se à Lei da atração como uma fuga a essa transformação.

Se nós não queremos sofrer, e isso é legítimo, então não temos que fugir de coisa alguma, por maior que seja a dor que isso nos traga, mas apenas soltar e desapegarmo-nos de tudo aquilo que tem que ser transformado, colocando tudo isso nas mãos dessa grande Mãe. Sim, porque o processo é exatamente o oposto. Não se trata de pedir coisas ao génio da lâmpada, mas sim entregar-lhe tudo aquilo que tem que ser transformado em nós. É para entregar e não para pedir.

Não entramos no circuito da abundância fugindo de nós próprios, não entramos no circuito da abundância pedindo a essa grande Mãe a satisfação dos nossos desejos. Nós entramos no circuito da abundância pela entrega, pela fé, que é esta certeza inquestionável que tudo está ali para o nosso crescimento e amadurecimento e que por isso não temos que fugir de nada, nem buscar o caminho mais cómodo, que embora nos possa trazer água fresca para os nossos pés, nada nos trará para a nossa verdadeira transformação como seres espirituais que somos.

Sim, porque um ser pode dominar por completo a Lei da atração, trazendo para a sua vida toda a felicidade material e estar completamente estagnado em termos espirituais, enquanto que um outro, nada sabedor dessa Lei e que até poderá ter a sua vida um tanto caótica do ponto de vista material, poderá estar a dar passos significativos nesse mesmo crescimento.

Ao entrarmos dentro da Lei da abundância o universo, sem que nós tenhamos que pedir coisa alguma, ou questionar o que quer que seja, porque já nos entregamos incondicionalmente a ele, irá fazer chegar a nós tudo aquilo que necessitamos para cumprirmos a nossa função, que tanto poderá ser coisa nenhuma do ponto de vista material como mais que tudo aquilo que alguma vez nós pudéssemos ter desejado. É indiferente. E é indiferente porque o foco não está mais naquilo que se recebe, mas sim naquilo que tem que ser realizado.

A escolha será sempre nossa. Podemos recusar continuar a caminhar pelo deserto rumo à verdadeira abundância, estacionando num qualquer oásis. Mas atenção, a Lei da atração é temporária como tudo aquilo que é material. Basta uma tempestade de areia e o deserto avançará sobre o oásis. A abundância, que é uma Lei espiritual, é eterna, e depois de alcançada nunca mais se separará de nós, venham as tempestades que vierem.

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Texto de Pedro Elias
http://www.pedroelias.org

Postado por João Antunes, em 28/02/18, na Rede Espirit Book