Preta, lésbica, mãe solteira e pobre.

Cumpriu-se o seu destino: espancamento e morte. A polícia está aí para sacramentar nossos preconceitos. A ONU afirmou que “a morte de Luana é um caso emblemático da prevalência e gravidade da violência racista, de género e lesbofóbica no Brasil”. Engano: não é mais um caso, é a sequência de uma cultura de extermínio de negros, homossexuais e pobres.

               É o método de “controle social”, criado com o escravismo e consolidado no governo de Luiz de Vasconcelos e Souza, que no século XVIII fundou o calabouço público, para facilitar o castigo aos escravos, que antes acontecia nas casas senhoriais. A família cristã não queria ver a tortura. Então o governador criou o calabouço público.

                Para reprimir o povo e “manter a ordem” existia a Guarda Nacional. O Brasil não teve exército até à guerra contra o Paraguai. O sistema jurídico e religioso respaldava as atrocidades contra os “marginais”.

                Com o tempo a sociedade se reciclou, criou instituições que dosam a violência, para evitar que os excessos desorganizem a dominação de classe.

                Luana não foi vítima da exceção, mas da continuidade de uma cultura racista entranhada no cerne do poder. Sintomática é a reação dos responsáveis imediatamente após o flagrante da violência, como o tenente coronel da PM, Francisco Mango Neto, que em 15/04 declarou que os “policiais estavam mais lesionados do que ela”. Os fatos desmentem o oficial, mas confirmam a histórica agressão de classe e de género aos negros, pobres e homossexuais e a “naturalidade” como os comandantes policiais explicam a violência.

Júlio Chiavenato 
Ribeirão Preto, 06 de Abril de 2016 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: infelizmente, isto que o grande jornalista Chiavenato magistralmente documenta, corresponde ao “status quo” da sociedade que vivenciamos e, que, hipocritamente tenta desmentir.

                Inconscientemente e indiretamente, o senhor Chiavenato conclui uma realidade que, talvez, ele mesmo, não se aperceba. Vivemos numa sociedade do “faz de conta”. Uma sociedade que se engana a ela própria. Sem fundamentos existenciais, logo, baseada em princípios animalescos, do “salve-se quem puder”, ou seja, na lei do mais forte. Uma sociedade que acredita em dogmatismos e utopias do imaginário coletivo, pensando tirar partido e proveito momentâneo, do velho “jeitinho brasileiro”, atropelando quem quer que seja, para atingir objetivos escusos, convicto de que ninguém viu, ninguém sabe, morreu, acabou tudo.

                Triste ilusão. Em pleno sec. XXI, ainda se acredita em histórias da “carochinha”, “Adão e Eva”, Céu e Inferno, demónios, sorte e azares. Quanta ignorância, arrogância e prepotência!

                Mal sabem que tudo que seja pensado ou executado é registrado nos arquivos akásicos dos nossos espíritos, cujos fundamentos são uma realidade, descodificados na espiritualidade e, perante os quais responderemos, item por item, e assim a nossa consciência nos impulsiona a passar por situações, as mais diversas, em futuras reencarnações, para redimirmos as faltas cometidas. Assim se justifica toda a sorte de existências: cegos, surdos, mudos, anões, “doenças mentais”, e todo o tipo de doenças, ditas incuráveis.

                Esta é a real sociedade que o homem teima em ignorar.

Alberto Maçorano