Sob Jair Bolsonaro, o governo organiza o preenchimentos dos chamados cargos de confiança guiando-se por uma estranha lógica: invoca o aparelhamento promovido pelas administrações do PT para justificar o aparelhamento a ser feito pela nova gestão. Horroriza-se tanto com a ocupação predatória do Estado que deseja alastrá-la. Pratica o que abomina. Considera a ideologização do serviço público tão inaceitável que pretende impor sua própria ideologia.

 

Não ocorreu ao novo governo a ideia de realizar concursos públicos ou processos seletivos baseados em currículos —algo que permitisse a aferição não da ideologia, mas do mérito intelectual e funcional de cada candidato. Ou seja: diante da possibilidade de produzir algo realmente novo, o governo preferiu repetir velhas práticas. Na última quarta-feira, o ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) iniciou a “limpeza” de sua pasta, exonerando 320 ocupantes de cargos comissionados.

Onyx chamou a demissão coletiva de “despetização”. Deu de ombros para o fato de que seu antecessor na Casa Civil não foi um petista, mas Eliseu Padilha, do MDB de Michel Temer. Na sexta-feira, em sua primeira reunião ministerial, Bolsonaro referiu-se à canetada de Onyx como um “exemplo” a ser seguido por todos os ministros. “Não há nenhum sentido termos num governo com o perfil do nosso pessoas que defendem outra lógica, outro sistema político”, diz o chefe da Casa Civil.

No Brasil, a alternância de poder virou um outro nome para aquilo que Cazuza chamou de “museu de novidades”. Os devotos de Bolsonaro que aplaudem o reaparelhamento estatal querem apagar a diferença entre o certo e o errado para que tudo se resolva no plano de uma reciprocidade abjeta, num torneio de predadores dividido apenas entre os direitistas que defendem o seu direito de usurpar as repartições públicas e os esquerdistas que querem retomar as trincheira$ perdidas.

Onyx diz não excluir a hipótese de recontratar um ou outro assessor exonerado. O critério da “competência” se dilui em meio a outros requisitos: “Vai ser feita uma análise de quem é que indicou, como é que chegou ao posto.” A despeito da referência petista, Onyx enxerga o Brasil do ciclo pós-redemocratização como um um país rendido a um imaginário regime comunista hipertrofiado.

“A sociedade brasileira decidiu, por maioria, dar um basta nas ideias socialistas e comunistas que, por 30 anos, nos levaram a esse caos que vivemos hoje —de desemprego, de desestruturação do Estado, de insegurança das famílias, de má prestação do serviço de saúde e de escola que, em vez de educar doutrina. A sociedade fez uma escolha muito clara. E nos cabe respeitar.”

Autoconvertido em porta-voz da sociedade, Onyx talvez se surpreendesse se encomendasse uma pesquisa para saber o que pensa o brasileiro cuja opinião ele imagina ecoar. Sem bilheteria, como se sabe, não há circo. E quem está em dia com suas obrigações tributárias não há de conviver bem com a ideia de financiar a remontagem de um velho espetáculo, que reserva à plateia o papel de boba. A usurpação de cargos públicos não tem ideologia.

 

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na ”Folha de S.Paulo” (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro ”A História Real” (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de ”Os Papéis Secretos do Exército”.

SOBRE O BLOG

A diferença entre a política e a politicagem, a distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de comentários.
Josias de Souza

06/01/2019 03h50

Nosso comentário: excelente interpretação do Josias de Souza. Só um cego não consegue enxergar o óbvio deste governo.

Não deixa de ser engraçado: fazer a despetização para fazer a bolsonorização…

Alberto Maçorano