Dezenas de líderes mundiais se reuniram em Jerusalém para comemorar o 75º aniversário da liberação do campo de extermínio. Em meio ao antissemitismo crescente na Europa e EUA, israelenses gostariam de ver mais ação.

© picture-alliance/abaca/E. Blondet Cerimônia em Jerusalém pelo jubileu da liberação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau
Cerca de 200 mil sobreviventes do Holocausto vivem ainda hoje em Israel. Nesta quinta-feira (23/01) alguns deles estiveram no Centro Mundial de Recordação do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, ao lado de figuras como os presidentes da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, da França, Emmanuel Macron, e da Rússia, Vladimir Putin, assim como o príncipe Charles, do Reino Unido.
Eles vieram ao Fórum Mundial do Holocausto para celebrar o 75º aniversário da liberação do campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau. Os que podiam caminharam pelos corredores do Yad Vashem, conversando com quem desejasse escutar suas histórias; e os presentes escutaram intensamente, com grande interesse misturado a dor.
“Eu ouvi as críticas, mas ainda acho esta reunião aqui extremamente importante”, comenta a sobrevivente Yona Amit, que trouxe consigo a neta Maor Ratzon, de 22 anos, apesar das temperaturas baixas e das chuvas esparsas.
Ela se refere aos poucos manifestantes que, algumas horas antes, se reuniram na entrada do Yad Vashem, portando estrelas amarelas como insígnia, e protestando contra o que chamaram de “um uso cínico e político” da memória do Holocausto.
“A mensagem deveria ser de bondade humana”, frisa a senhora de 81 anos. Gente comum que fez coisas extraordinárias foram os que nos salvaram, que me salvaram. Essas pessoas ainda existem. E deveríamos enfrentar o mal hoje, exatamente como elas fizeram naquele tempo.”
Em vez de falar de política, o sobrevivente Haim Roth, de 87 anos, esperava que o tema real fosse encontrar modos concretos de combater a nova ascensão do antissemitismo. “A lição que deveríamos aprender é que o Holocausto nunca mais deve acontecer. Mas, em vez disso, só há palavras vazias e declarações ocas”, comentou na rádio israelense, antes da cerimônia. “Ninguém fala da questão real: como combater o racismo e o ódio por todo o mundo, e não só contra os judeus.”

© DW/D. Regev Yona Amit (esq.) e a neta Maor Ratzon
“Não se deve olhar passivo as más ações”
De fato, o evento foi obscurecido por rusgas políticas atuais, em primeira linha entre a Rússia e a Polônia, por seus respectivos papéis na Segunda Guerra Mundial. Líderes de ambos os países deveriam participar do evento, mas o presidente polonês, Andrzej Duda, o boicotou, depois de seu pedido para fazer um discurso ter sido recusado. A Lituânia também se escusou, em demonstração de solidariedade à Polônia, país onde está localizado Auschwitz-Birkenau.
“A verdade sobre o Holocausto não deve morrer. Ela não deve ser distorcida ou usada para qualquer propósito”, disse Duda numa declaração. “Quanto aos fatos referentes ao início da guerra, lamento dizê-lo, mas o presidente Putin está conscientemente espalhando mentiras históricas”, comentou em entrevista exclusiva à emissora pública israelense Kann.
A opinião pública de Israel, entretanto, parecia mais interessada no destino de Naama Issachar, de 26 anos, presa na Rússia por carregar 9,5 gramas de maconha em sua bolsa, durante uma escala em Moscou, a caminho da Índia. Os israelenses esperavam que Putin a perdoasse, houve até quem especulasse que ele a traria consigo em seu avião.
Ainda assim, muitos estão orgulhosos por sua cidade hospedar um evento de tais dimensões. “É um grande privilégio para Jerusalém”, disse Meirav, que mantém, junto com o marido, um bem-sucedido salão de cabeleireiro no centro da cidade.
“Ter diplomatas tão respeitáveis em Israel em geral, e em Jerusalém em particular, é uma distinção honrosa para nós”, comentou o casal. “É uma oportunidade de receber representantes de todo o mundo, que promoveriam a memória do Holocausto em seus países de origem, e isso não deve passar despercebido.”
De volta ao nebuloso Monte Herzl, onde se localiza o Yad Vashem, Maor Ratzon observa com admiração sua avó, Yona Amit. “Ela é uma mulher incrível, um modelo de vida para mim. Ela é professora, é voluntária, dedica sua vida à educação. Mas, acima de tudo, a história dela é de humanidade, de gente que criou pequenos milagres arriscando a própria vida, em vez de só ficar olhando passiva.”
Se há alguma mensagem a ser tirada da situação, é a de manter o coração aberto, observa a jovem que espera em breve começar a trabalhar com adolescentes em risco. “Simplesmente não ignorar as más ações que se vê. Isso pode significar o mundo para outra pessoa, até mesmo toda uma vida.”
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Autor: Dana Regev (av)

Nosso comentário: fato histórico tenebroso que nunca é demais relembrar. Jamais deverá ser esquecido ou ocultado.

Alberto Maçorano