Os moradores de rua que agora correm grande risco com as baixas temperaturas deste final de outono, são os mesmos que, nos dias de calor escaldante, colocam papelões nas calçadas para dormir. Nem por isso estão em melhor situação.

                E nem por isso incomodam menos a consciência dos que não conseguem dar a eles a chance de reinventar este jeito de viver.

                É que além de “sem teto”, eles são também os “sem-banho”, os “sem-comida”, os “sem-livro”, os “sem-escola”, os “sem-diploma”, os “sem-família”, os “sem-dinheiro”, os “sem-tudo”.

É só neles, e nesta situação miserável e inglória, que o jornal A Cidade pensa, quando convoca Ribeirão Preto para doar roupas quentes nesta Campanha do Agasalho.

                Afinal, a hipotermia pode matar. A Arquidiocese de S. Paulo acaba de denunciar a morte de cinco sem-teto na capital. Morreram de frio, da mesma forma que poderiam ter morrido de tiro, de pancada, de fogo na roupa e outras tantas fatalidades a que se expõem os desvalidos.

                Não queremos com isso, salvar-lhes a dignidade ou a capacidade de regeneração. Pensamos, apenas, modestamente, em lhes proporcionar calor e conforto e lhes resguardar o sono. Sabemos que para mudar suas vidas, seria preciso muito mais do que simplesmente coletar casacos e mantas. Mas vamos começar do início. É básico e é possível.

Editorial jornal “A Cidade”
Ribeirão Preto, 18/06/16

Nosso comentário: vamos começar por onde termina o editorial: “Sabemos que para mudar suas vidas, seria preciso muito mais do que simplesmente coletar casacos e mantas. Mas vamos começar do início. É básico e é possível”. Este cenário repete-se desde que nos conhecemos como “sociedade”. Portanto, sequer vale a pena contabilizar os anos desta repetição. Diz o editorialista que vamos começar do “início”. Por acaso, nestas centenas de anos que já se passaram alguém fez algo de concreto e abrangente para ir além desse “início”? A resposta todos a conhecem. É muito fácil e cómodo analisar e constatar essa realidade, com a barriga cheia, vivendo e dormindo em palácios ou no conforto de simples casas e apartamentos.

A insensibilidade comum é gritante. Esses “desvalidos” não precisam só dessas esmolas, acima de tudo, precisam de “dignidade”, de consolo e de “amor”. Esses “desvalidos” poderiam ter sido em outras vidas “grandes” fazendeiros, industriais ou governantes que cometerem muitas atrocidades. Por outro lado, esses grandes ladrões políticos e governantes, da atualidade, poderão ser os “desvalidos” de amanhã, em próximas reencarnações.

Nem por isso, deixarão de ser criaturas de Deus e, como tal, deverão ser tratadas e regeneradas. Por isso, se torna imperioso, imprescindível, a divulgação dessa realidade existencialista que, ao contrário do que muitos pensam e propõem, deveria ser estudada nas escolas e universidades. Ao invés de,  por pruridos, preconceitos e constrangimentos de toda a ordem, tenta-se desviar a atenção, ocultar e anular essa realidade, deixando a juventude, futuros governantes do amanhã, sem a necessária formação intelectual da realidade em que nos inserimos. O resultado está à vista de todos, escusando-se quaisquer comentários.

Se o jornal A Cidade, está preocupado de verdade com esses “desvalidos”, dê o primeiro passo para lá do “início”; convido-o formalmente a juntar-se ao nosso ideal: criação de uma grande estrutura para abrigar e regenerar esses “desvalidos”.

 

Alberto Maçorano

 

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