Vereadores de várias cidades da região aumentaram o número de cadeiras e os salários, obviamente, acima da inflação. A população indignou-se. Uma moça reclamou que a sessão foi rápida e eles “nem cantaram o hino nacional”. Aí está: a questão é o hino nacional.

Antes do jogo de futebol e a decisão dos temas mais importantes, os patriotas põem a mão no peito e cantam o hino. Sem entenderem nada ou sabendo tudo: o “ovirodum” é a senha para justificar a malandragem. Nem as lágrimas dos atletas enganam, elas servem para o comentarista da televisão falar bobagem. Aliás, todos esperam as lágrimas.

                Não poderia ser diferente. Nessa sociedade hipócrita e injusta, em que os de cima pisam nos de baixo, o hino é a senha para que tudo permaneça como está e legitime a hierarquia de classe e a predominância de desigualdade económica, que condiciona as estruturas sociais e produz a safadeza política.

                Por isso as autoridades fazem questão do hino. O hino é o símbolo da sociedade tal como é, assim como as religiões aproveitam-se dos seus símbolos. Os símbolos geram os ícones que se transformam em signos, com seus significantes e significados. Daí o patriotismo exaltado e a religiosidade cega. E como fruto, a dominação de quem manipula tais instrumentos.

                “Em nome da pátria” e “em nome de Deus” cometeram-se as maiores atrocidades da história e se justificam, em um caso e outro, as estruturas de dominação. Instintivamente, até os políticos semianalfabetos sabem disso, porque a frase de Samuel Johnson também é citada mecanicamente: “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Júlio Chiavenato 
Ribeirão Preto, 18/06/16 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: parabéns mais uma vez, senhor Chiavenato, pelas suas análises detalhistas da mendicidade política brasileira. A situação é séria demais para ter desdobramentos infantis como aquele a que acabamos de assistir, trocando-se “meia dúzia de ladrões amadores” por uma dúzia de ladrões do mais alto quilate. Assim não vira em nada. Continuaremos a ser enganados. E a ladainha será sempre a mesma. A corrupção está no “DNA” da maioria dos políticos, administradores e governantes do Brasil. Enquanto esse câncer não for extirpado pela raiz, não adianta trocar uns pelos outros.

É imperioso iniciar um novo ciclo político brasileiro, com gente nova e à prova de quaisquer indícios de corrupção, e ganhando apenas metade dos salários vigentes. Enquanto isso não for feito andaremos enganando-nos uns aos outros, e o Brasil e seus cidadão vivendo na penúria e sem quaisquer benefícios dignos de nota, incapazes e sem moral para conter a onda de violência e marginalidade que a sociedade está atravessando e, pior ainda, sem se vislumbrar um ato mais sublime e sério para recomeçar tudo de novo.

 

Alberto Maçorano