A libertação de José Dirceu é o assunto do dia. Os surrados petistas festejam a decisão do Supremo Tribunal Federal em lhe conceder o habeas corpus, enquanto seus adversários criticam os ministros que votaram, e até a Corte, pela soltura. Porém, tudo não passa de mais um lance da crise brasileira que explodiu nas mãos do Partido dos Trabalhadores, mas vem de muito antes da sua existência. A propina, de que Dirceu já foi condenado como operador, é prática antiga da política brasileira, conforme delataram empreiteiros que desde tempos antigos realizam grandes obras, notadamente as de infraestrutura custeadas pelo governo. Por certo, outros envolvidos, especialmente o ex-ministro António Palocci, também vão tentar obter o mesmo remédio de Dirceu para sair da prisão. Mas não há nada de mal nisso, pois é um direito. As apurações do Mensalão e da Operação Lava Jato tiveram o condão de revelar e provar ao país a corrupção que se entranha nos escaninhos do poder político e administrativo. Na medida do possível, os envolvidos são presos preventivamente, condenados e devolvem dinheiro. É certo que não conseguiremos ressarcir os cofres públicos de tudo o que deles foi pilhado, mesmo porque muitos esquemas não chegarão a ser identificados; outros, mesmo que revelados, terão caído em prescrição. O ideal, porém difícil, é um dia, termos varrido a corrupção da vida nacional. () Quanto às outras acusações contra Dirceu e outros envolvidos, cabe à justiça apurar. Já em relação à sua participação política e possibilidade de volta de seu partido ou grupo ao poder, é uma questão eleitoral que, numa democracia, só cabe ao eleitor decidir. Política e crime só têm conexão quando a atividade criminosa torna o agente inelegível e, portanto, inabilitado para a militância em partidos ou funções eletivas…

Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente da Polícia Militar
Jornal “A Cidade”, Ribeirão Preto, 06/05/17

Nosso comentário: quase não queria acreditar ao ler o texto acima, perante a corretíssima postura, equilíbrio e bom senso, se comparado ao lamaçal mediático a que estamos acostumados nos últimos tempos. Se este fato nos repugna violentamente, o pequeno “oásis” no deserto da ignorância, da arrogância, da prepotência, do desequilíbrio mental e da estupidez que grassam na conspurcada sociedade, tem que ser aplaudido, mesmo. Parabéns Dirceu Cardoso Gonçalves pelo seu bom senso e equilíbrio na análise dos fatos atuais. Se grande parte das informações da mídia fossem pautadas por esse equilíbrio, não assistiríamos, por certo, ao acirramento de posições de leitores desinformados. 

 Alberto Maçorano