Vocês já conhecem o objetivo da presente reunião. Quero apresentar-lhes as minhas despedidas, em virtude da ausência temporária a que sou compelido, por elevadas razões de serviço. Conheço a pureza do amor que vocês me dedicam, e estou certo de que não ignoram a extensão da estima que lhes consagro; é natural.
Somos amigos na mesma empresa do bem, e associados felizes na execução da Divina Bondade. Companheiros de luta construtiva, pesaria sobremaneira a separação de agora, não obstante efêmera, se não guardássemos no âmago da alma, a luz do esclarecimento.

            Alguns colaboradores, a quem muito devo, endereçaram-me apelos para que permaneça na nossa colónia de trabalho, gentileza que agradeço, comovido. Não vibra em minhas palavras qualquer prurido de personalidade, mas, a estima recíproca e fiel a que nos devotamos. Urge considerar, porém, meus amigos, que este servo humilde não deve absorver o lugar que Jesus deve ocupar em vossas vidas. É muito difícil descobrir o amor sem mácula, e entregarmo-nos a ele sem reservas. E porque essa dificuldade é flagrante em todos os caminhos da nossa evolução, quase sempre incidimos no velho erro da idolatria. É bem verdade que nos encontramos numa assembleia de corações simples e amigos, e que não cabem nesta sala, vastas e maciças considerações filosóficas, para nos restringirmos ao abençoado setor do sentimento. Mas, não posso ver fugir a oportunidade de sérias reflexões em torno do problema dos laços sagrados que nos unem, sem nos algemarmos uns aos outros. A nossa estrada de aperfeiçoamento, bem como a senda de progresso da humanidade terrestre, em geral, processa-se por tortuoso caminho, no qual pisamos sobre os ídolos quebrados. Sucedem-se as nossas reencarnações, e as civilizações repetem o curso em longas espirais de recapitulação, porque temos sido invigilantes quanto aos caminhos retos.

            Temos criado muitos deuses à parte, para destruí-los, muitas vezes, em profundo desespero do coração, quando a realidade nos dilata a visão ante o horizonte infinito da vida. Na procura do conforto individual, perante problemas graves da nossa vida, raramente encontramos a solução, mas, a fuga, da qual nos valemos com todas as forças de que somos capazes, para adiar indefinidamente a ação imprescindível da correção ou do resgate. Virá, porém, o dia da restauração da verdade, o momento do nosso testemunho pessoal.

É por isso, meus amigos, que o orientador consciente das suas tarefas, não pode fugir aos imperativos da evolução de seus tutelados. De quando em quando, é necessário deixar o discípulo entregue a si mesmo, ainda que as mais belas notas de carinho nos sugiram o contrário. Junto do instrutor, o aprendiz, quase sempre, apenas observa. À distância, porém, experimenta e age, vivendo o que aprendeu. É indispensável desenvolver os valores ilimitados inerentes a cada um de nós, guardados como divina herança no potencial do nosso mundo íntimo. A proteção inconsciente, que subtrai o protegido ao clima de realização que lhe é próprio, elimina os germens do progresso, da elevação e do resgate individual. Estabelecer a dependência dessa ordem é criar o cativeiro do espírito, que anula a nossa capacidade de improvisação e estimula os vícios do pensamento. Fujamos ao condenável sistema de adoração recíproca, em que a falsa ternura opera a cegueira do sentimento. Respeitemo-nos mutuamente, na qualidade de irmãos congregados para a mesma obra do bem e da verdade, mas, combatamos a idolatria; queiramo-nos uns aos outros, como Jesus nos amou; todavia, cooperemos contra a apologia do exclusivismo destruidor. Somos depositários de grandes lições da vida superior. Colocá-las em prática, estendendo mãos amigas aos nossos semelhantes, é o nosso objetivo fundamental. Cada um de vocês tem obrigações em separado nos diferentes setores da atividade espiritual. Durante alguns meses estivemos quase sempre juntos, quando a oportunidade permitia. Associados na mesma experiência, criamos laços santificadores de amor que nos irmanam uns aos outros. Não podemos, porém, descansar sobre as comodidades do afeto. É preciso enfrentar as dificuldades do serviço, conhecer a luta, testemunhar aproveitamento. Nunca me valeria da qualidade de instrutor para impedir o vosso crescimento mental. A Terra, que nos é mãe comum, reclama filhos esclarecidos que colaborem na divina tarefa de redenção planetária.

Há multidões por toda a parte, escravos do bem-estar e da miséria, da alegria e do sofrimento, estranhos ao caráter temporário das condições em que se agitam. Todos vivem, mas raros espíritos do nosso mundo tomaram parte da vida interna. O campo de trabalho é vastíssimo. Nele experimentam o que aprenderam, despertando as consciências que dormem ao longo do caminho. O aprendizado fornece-nos conhecimento. A vida oferece-nos a prática. Unamos a sabedoria com o amor na atividade de cada dia, e descobriremos a divindade que palpita dentro de nós, glorificando a Terra, que aguarda o nosso concurso eficiente, pelo equilíbrio e compreensão. Não faltam instrutores benevolentes e generosos e, além disso, vocês devem aplicar as lições que receberam, orientando, igualmente, seus semelhantes em luta e os companheiros ainda frágeis. Só as vítimas voluntárias da idolatria convertem a ausência num vácuo. Não! Meus amigos! Não alimentemos qualquer processo doloroso de saudade sem otimismo e sem esperança. Imenso futuro de realizações sublimes com o Pai espera cada um de nós. Edifiquemo-nos, aceitando as experiências construtivas que nos convocam o esforço à possibilidade maior.

Estimo profundamente a consolação individual, mas, acima do nosso conforto, devemos procurar a libertação com o Cristo.

Devemos ao Cristo Jesus todas as graças! Ele é o divino intermediário entre o Pai e nós outros. Saibamos agradecer ao Mestre, as bênçãos, as lições e as tarefas. O espírito de gratidão ao Senhor alegra a vida e valoriza o trabalho dos servos fiéis!…

– Agora, meus amigos: elevemos ao Cristo os nossos pensamentos de júbilo e gratidão, consagrando-lhe as inesquecíveis emoções do nosso adeus.

Senhor!

Que sejam para o Teu coração misericordioso

Todas as nossas alegrias, esperanças e emoções!

Ensina-nos a executar os teus propósitos desconhecidos,

Abre-nos as portas de ouro das oportunidades do serviço

E ajuda-nos a compreender a Tua vontade!…

Seja o nosso trabalho a oficina sagrada de bênçãos infinitas.

Converte-nos as dificuldades em estímulos santos,

Transforma os obstáculos da senda em renovadas lições…

Em Teu nome,

Semearemos o bem onde surjam espinhos do mal,

Acenderemos a tua luz onde se manifeste a treva,

Verteremos o bálsamo do teu amor onde corra o pranto do sofrimento,

Proclamaremos a Tua bênção onde haja condenações,

Desfraldaremos a Tua bandeira de paz junto às guerras do ódio.

Senhor!

Faz com que possamos servir-Te,

Com a fidelidade com que nos amas,

E perdoa as nossas fragilidades e vacilações na execução da Tua obra.

Fortifica-nos o coração,

Para que o passado não nos perturbe e o futuro não nos inquiete,

A fim de que possamos honrar-Te a confiança no dia de hoje,

Para a renovação permanente até à vitória final.

Somos tutelados na Terra,

Confundidos na lembrança,

De erros milenares.

Mas, queremos agora,

Com todas as forças da alma,

A nossa libertação em Teu amor, para sempre!

Arranca-nos do coração as raízes do mal!

Liberta-nos dos desejos inferiores,

Dissipa as sombras que nos obscurecem a visão do Teu plano divino.

E ampara-nos, para que sejamos

Servos leais da Tua infinita sabedoria!

Dá-nos o equilíbrio da Tua lei,

Apaga o incêndio das paixões que, por vezes,

Irrompe ainda no âmago dos nossos sentimentos,

Ameaçando-nos a construção da espiritualidade superior.

Conserva-nos em Tua inspiração redentora,

No ilimitado amor que nos reservaste,

E que, integrados no Teu trabalho de aperfeiçoamento incessante,

Possamos atender-Te os sublimes desígnios,

Em todos os momentos,

Convertendo-nos em servidores fieis da tua luz, para sempre!

Assim seja!

Do livro: Missionários da Luz
André Luís (espírito) e psicografia de Chico Xavier

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