Já lhes disse, há algum tempo, que eu não sou kardecista, mas respeito-os muito, sobretudo pela capacidade que boa parte dos espíritas têm – e a demonstram – de prática de amor ao próximo. Mas, realmente não creio em reencarnação, pilar da doutrina que, para muitos, além de religião é ciência e filosofia. 

A reencarnação, aliás, até que seria uma oportunidade de todos nós começarmos tudo de novo. A poetisa católica Adélia Prado – mineira de boa cepa – certa vez, concedendo entrevista a jornal paulistano, disse: “Ah! Como eu gostaria de começar tudo de novo.

 Só que recomeçaria tudo mais generosamente”. Eu também subscrevo o que Adélia falou.

                Foi pensando nisto que, em dia do final do ano recém passado – um tempo apropriado e oportuno para se fazer balanço – eu li observação que, há trinta anos fez o maestro Herbert Von Carajan. Foi pouco tempo antes do seu falecimento em 1989, quando concedeu entrevista a jornal paulistano e declarou “estou convencido de que as pessoas têm várias vidas. Asseguro-lhes que voltarei”. O maestro lembrou-se do que certa vez dissera Wolfgang Goethe: “se minha vida interior tem tanto a dar, a natureza tem que me oferecer um novo corpo”. Falou Carajan: “concordo com ele”. O problema – como disse-me certa vez velho amigo, atualmente já falecido – é que “a pessoa volta mas se esquece de tudo”. Começa novamente. Ou, como se diz em espanhol, volve-se a empesar.

                O arremate do texto é a síntese que certa vez meu pai fez-me de modo enfático: “vida, não tem bis. É uma só”. Mas eu não nego que já pensei algumas vezes a respeito. Continuo, entretanto, católico apostólico romano, graças a Deus.

Vicente Golfeto
Ribeirão Preto, jornal A Cidade, 31/03/18
golfeto@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: meu caro Vicente Golfeto, aprecio muito a sua capacidade intelectual, mas nesse quesito, não concordo com o seu posicionamento, precisamente pela sua elevada capacidade intelectual. Uma coisa é não acreditar por não acreditar, simplesmente. Outra, completamente diferente, é não acreditar embasado em qualquer argumentação. Já dizia Sócrates: “nunca digas que sabes aquilo que não sabes”. Portanto, hoje, em pleno sec. XXI, o século da razão, por excelência, não se justificam as duas alternativas do “não creditar”. Pois, qualquer pesquisa séria sobre a realidade existencial, terá como desfecho final a existência de outras vidas, ou seja, a pluralidade de existências. Isso de “vida, não tem bis. É uma só”, é um pensamento muito retrógrado e vazio, sem qualquer fundamentação. Me perdoe, mas tenho dificuldade em acreditar que o seu pensamento seja coerente com esse tipo de argumentação. Pode não ser o seu caso, mas existem pessoas que, embora aceitando o postulado espírita, não se assumem publicamente. Perante isso, mais admiro Adolfo Bezerra de Menezes, o famoso “medico dos pobres” por que que ficou conhecido no Rio de Janeiro, eis um apontamento da sua nota biográfica: Após estudar por alguns anos as obras de Allan Kardec, em 16 de Agosto de 1886, aos cinquenta e cinco anos de idade, perante grande público (estimado, conforme os seus biógrafos, entre mil e quinhentas e duas mil pessoas) no salão de conferências da Guarda Velha, no Rio de Janeiro, em longa alocução, justificou a sua opção em abraçar o Espiritismo. O evento chegou a ser referido em nota publicada pelo “O Paiz”.

Sem mais comentários meu caro Vicente Golfeto.

Alberto Maçorano