Um país que não cuida das suas crianças, mas cujo melhor investimento atual é a “alimentação humana” para cães, só pode ser como somos.

Um estudo da Fundação Abrinq constata que 40,2% das crianças brasileiras até 14 anos estão em situação de pobreza. Note-se: consideraram-se pobres as famílias que ganham menos de meio salário mínimo. Assim, uma família com três filhos e que recebe, por exemplo, R$ 500,00, não é pobre. Daí se vê o tamanho da desgraça da infância brasileira. Não é preciso lembrar (ou é) que estas crianças não têm e não terão escolas, assistência médica e comem os restos que encontram na luta pela sobrevivência.

O estudo analisa os dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Há, segundo o Pnad e o IBGE, 17,3 milhões de jovens em situação vulnerável, na pobreza. No Sudeste, a região mais rica, 27,8% dos jovens são pobres. São Paulo, com toda a sua prepotência e propaganda paga com o dinheiro público tem 21,2% dessas crianças.

A situação é mais grave quando se estuda a pobreza extrema, isto é, crianças de famílias que ganham menos de R$ 240,00. Nesse nível estão 13,5% dos jovens brasileiros até 14 anos. Somando-se os pobres e os de extrema pobreza temos 53,7% de crianças sobrevivendo na miséria, antecipadamente excluídas de qualquer futuro.

Vivemos em uma sociedade que tolera essa vergonha e não se abala com a miséria de mais de metade da sua infância. Nem se pergunta por que é assim. Acha “normal” e finge condenar a corrupção, desde que seja a dos “outros”.

Se questionarmos por que a miséria de muitos sustenta a riqueza de poucos, talvez as coisas mudem. E mudem-se as estruturas da concentração de renda.

Júlio Chiavenato
Jornal A Cidade, Ribeirão Preto, 26/07/17 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: desculpem persistir na postagem da coluna deste grande jornalista Chiavenato. Poucos no Brasil terão a sua dimensão ética, de caráter e, sobretudo, cidadania. A sua bagagem de conhecimentos e atualidade da sociedade brasileira, é enorme e abrangente.Sabe como poucos concatenar as suas ideias em direção ao foco da questão com argumentos concretos, objetivos e transparentes, sem rodeios.

A coluna de hoje é elucidativa, concreta, objetiva, triste e lamentável.

Não há como ficar insensível perante um quadro degradante e miserável de uma sociedade em que a opulência e a miséria andam de mãos dadas. Sucedem-se governos, atacam-se mutuamente, mas ninguém, até hoje, teve coragem de enfrentar o problema de frente para ser resolvido, de verdade. Parece que interessa a muitos que a miséria permaneça. O governo Lula foi sensível a essa questão. Intensificou o “bolsa família”, mas não somos favoráveis a esse tipo de auxílio. Essa quantidade de dinheiro (que não é pouco) doada à ociosidade não será a solução adequada. Essa dinheirama poderia ser canalizada para a criação de indústrias e infraestruturas que ocupassem toda essa mão de obra ociosa. Essa política só poderia ser utilizada em circunstâncias emergenciais e temporária. Esse é o nosso ponto de vista.   

Por outro lado, não podemos deixar de lamentar que uma pequena parte da sociedade viva na opulência sem a mínima preocupação pela maior parte que labuta pela sobrevivência e outra simplesmente vegeta…

Eis a resposta para toda uma marginalidade e uma decadência social que jamais atingirá um ponto de equilíbrio, porque os que estão bem só se preocupam com eles próprios.

Jamais sairemos deste atoleiro enquanto uns ganham 50 mil reais, apenas um exemplo, pois há casos mais gritantes, enquanto ao lado milhares ganham 1.000 reais, quando ganham. A escravatura do chicote há muito que acabou, mas esta não será um outro tipo de escravatura?

O mais chocante é constatar que os governos sabem de tudo isto e nada fazem, aliás, fazem vista grossa. E para culminar a delinquência social, é degradante saber que um presidente da República é corrupto e já se serviu do tal Joesley que agora esnoba e toda a máfia governativa e política bebem pela mesma taça e tudo continua como se tudo isso fosse normal, como diz Chiavenato.

Mas, para concluir, (apesar do manancial de inquirições se fossemos atrás disso…), o que é mais caricato é constatar a sofreguidão com que alguns juízes e promotores ocupam o precioso tempo de trabalho, ganhando chorudos salários, tentando incriminar à força, sem quaisquer comprovativos uma pessoa de bem, como o Lula, preocupando-se exacerbadamente com um inofensivo tríplex da vida, quando a miséria e a corrupção campeia por toda a força política e governamental, sem que nada aconteça a esses figurões.

Assim, o Brasil não mudará jamais o seu padrão enquanto não extirpar de vez a gritante desigualdade social.

Alberto Maçorano