Puséramo-nos a caminho e, a breves minutos, estacionávamos 

diante dum edifício de vastas proporções. 

O colega, gentil, conduziu-nos ao interior de espaçoso
necrotério, onde defrontamos um quadro interessante,
O cadáver de uma jovem, de menos de trinta anos, ali jazia
gelado e rígido, tendo a seu lado uma entidade masculina, em
atitude de zelo. 
– Terminou o processo de desligamento dos laços fisiológicos–exclamou o facultativo atento –, mas a pobrezinha há seis horas que está dominada por terrível pavor. E apontando o cavalheiro desencarnado, que permanecia junto dela, cuidadoso, o receitista esclareceu:

– Aquele é o noivo que a espera, há muito. Aproximamo-nos um tanto e ouvimo-­lo exclamar carinhosamente: –

Cremilda! Cremilda! Vem! Abandona as vestes rotas. Fiz tudo
para que não sofresse mais… Nossa casinha te aguarda, cheia de amor e luz!… A jovem, todavia, cerrava os olhos, demonstrando não querer vê-­lo. Notava­-se, perfeitamente, que seu organismo espiritual permanecia totalmente desligado do vaso físico, mas a pobrezinha continuava estendida, copiando a posição cadavérica, tomada de infinito horror.

Aniceto, que tudo pareceu compreender num abrir e fechar de olhos, fez leve sinal ao rapaz desencarnado, que se aproximou
comovido.

– É preciso atendê­-la doutro modo
– disse o nosso orientador, resoluto –, vejo que a pobrezinha não dormiu no desprendimento e
mostra-­se amedrontada por falta de preparação espiritual.

Não convém que o amigo se apresente a ela já, já… Não obstante o amor que lhe consagra, ela não poderia revê-­lo sem terrível comoção, neste instante em que a mente
lhe flutua sem rumo…

– Sim – considerou ele, tristemente –, há seis horas
chamo-a sem cessar, identificando-­lhe o terror.

Redargüiu Aniceto, conselheiral:

Ausência de preparação religiosa, meu irmão. Ela dormirá,
porém, e, tão logo consiga repouso, entregá­la-emos
aos seus cuidados. Por enquanto, conserve-­se a alguma distância.

E fazendo-se acompanhar do facultativo, que assistira
espiritualmente a jovem nos últimos dias, aproximou­-se
da recém­ desencarnada, falando com inflexão paternal:

– Vamos, Cremilda, ao novo tratamento. Ouvindo-­o, a
moça abriu os olhos espantadiços e exclamou:

– Ah, doutor, graças a Deus! Que pesadelo horrível!
Sentia-­me no reino dos mortos, ouvindo meu noivo, falecido há anos,
chamar-­me para a Eternidade!…

–Não há morte, minha filha!–objetou Aniceto, afetuoso – creia na vida, na vida eterna, profunda, vitoriosa!

– É o senhor o novo médico?– indagou, confortada.

– Sim, fui chamado para aplicar-lhe alguns recursos em
bases magnéticas.

Torna­-se indispensável que durma e descanse.

– É verdade… – tornou ela de modo comovente
–, estou muito cansada, necessitando de repouso…

Recomendou­-nos o instrutor, em voz baixa, prestássemos auxílio, em atitude íntima de oração, e, depois de conservar­-se em silêncio por instantes, ministrou­-lhe
o passe reconfortador.

A jovem dormiu quase imediatamente. Deslocou­-a
Aniceto, afastando-­a dos despojos, com o zelo amoroso dum pai, e, chamando o noivo reconhecido, entregou-­a carinhosamente. – Agora, poderá encaminhá­-la, meu irmão.

O rapaz agradeceu com lágrimas de júbilo e vi­o retirar-se
de semblante iluminado, utilizando a volitação, a carregar
consigo o fardo suave do seu amor.

Nosso mentor fixou um gesto expressivo e falou:

– Pela bondade natural do coração e pelo espontâneo cultivo da virtude, não precisará ela de provas purgatoriais. É de lamentar, contudo, não se tivesse preparado na educação religiosa dos pensamentos. Em breve, porém, ter­se­-á adaptado à vida nova. Os bons não encontram obstáculos insuperáveis.

E, desejoso talvez de consubstanciar a síntese da lição, rematou:

– Como vêem, a idéia da morte não serve para aliviar, curar ou
edificar verdadeiramente. É necessário difundir a idéia da vida
vitoriosa. Aliás, o Evangelho já nos ensina, há muitos séculos,
que Deus não é Deus de mortos e, sim, o Pai das criaturas que vivem para sempre.

Fonte – Os Mensageiros, psicografia Chico Xavier, pelo espírito André Luiz, trecho do Cap.48 “Pavor da Morte”

Nota do administrador do Farol

Este exemplo de Cremilda é instrutivo para todos nós, ela tinha uma boa natureza, assim foi assistida pelo esposo e Aniceto, mas o pavor da morte, a ideia que a morte representa o fim, o nada a extinção da vida, dificultou o seu desprendimento, fez com que recusa-se a encarar a nova situação agarrando-se ao corpo físico já sem vida.

No livro O Céu e o Inferno, Allan Kardec, tem exemplos muito instrutivos de espíritos sem formação e conhecimento espiritual, presos ao corpo físico e sentindo a decomposição do mesmo, pois enquanto encarnados levaram vidas materialistas, assim seu perispirito leva muito tempo para desprender-se do físico, trazendo sofrimento para o espírito que sente os horrores da decomposição, pois agarram-se aquilo que conhecem neste caso o corpo físico, sentem afinidade com a matéria corporal, em suma quanto mais espiritualizado mais rápido o desprendimento.

Na obra: Legião – Um Olhar Sobre o Reino das Sombras (psicografia Robson Pinheiro – ditado pelo espírito Ângelo Inácio, é relatada uma situação de uma modelo, que em vida se apegou à beleza física, sua preocupação era o culto do corpo acima de tudo, aconteceu que quando desencarnou ficou presa ao corpo em decomposição, durante vinte anos, por se recusar a abandonar o objecto de sua predilecção. Só com ajuda de sua avó e da doação de ectoplasma, trabalhado por espíritos elementais (espíritos da natureza) doado por um médium desdobrado foi possível tira-lá de sua sepultura.

Importante conhecermos o mundo espiritual, irmos nos habituando à ideia de que podemos desencarnar a qualquer momento, lermos as obras que nos descrevem a vida espiritual e compreendermos que recebemos o que tivermos dado. Façamos o nosso melhor ao nosso alcance e sustentemos a certeza de que quando nosso momento chegar, não haverá razões para termos pavor da “morte”. Esse pavor, o medo de morrer é um obstáculo a que o perispírito se desprenda mais rapidamente do corpo físico. Para aquele que tem a consciência tranquila não há o que temer, pois que amigos, familiares, e nosso guia ajudam no processo de desligamento do perispírito e nos ajudam a ambientar mais rapidamente à nova vida. Devemos ir-nos mentalizando e compreendermos que a morte não é um mal, mas apenas mudança de dimensão, plano. Devemos ir-nos habituando a nos desprender dos bens materiais, a nos desligar do apego as coisas terrenas e afeiçoarmos aos valores espirituais, assim nosso desprendimento será mais suave e mais rápido por já nos identificarmos com a nova situação depois da “morte”

1.Espíritos Elementais ou Espíritos da Natureza – ver O Livro dos Espíritos, no cap. IX “Da intervenção dos Espíritos no mundo corporal” – Ação dos Espíritos sobre os fenômenos da Natureza.

Com assombro, notei que a desencarnada estava unida aos
despojos. Parecia recolhida a si mesma, sob forte impressão de terror. Cerrava as pálpebras, deliberadamente, receosa de olhar em torno.

 

Postado por Ana maria Teodoro Massuci, em 24/05;17, na Rede Espirit Book