Em oito dias de Feira do Livro aprendi muito. São cenas que vão me acompanhar para o resto de minha vida. Em primeiro lugar, e com certeza, o aprendizado mais revelador, é que não devemos transformar fatos ruins em realidades eternas. É da cultura do brasileiro rotular para sempre. Quem me ensinou isso não foi uma pessoa ou um episódio isolado, mas 5.500 adolescentes, estudantes das escolas públicas, em cinco momentos diferentes. Ao longo do projeto “Combinando Palavras”, que em resumo propõe o estudo da obra de seis autores da literatura brasileira e posteriormente oportuniza um encontro entre escritor e leitores, revi os posicionamentos. Muitas vezes esses jovens não cruzam a linha que divide o certo do errado porque o muro é alto demais. Uma brecha que se abre, uma escada que se oferece, uma mão que se estende e eles não perdem a oportunidade para mostrar que estão ali, só juntando forças para romper a barreira, superar a altura, seguir criando e recriando.

                Um dia ruim, um episódio triste, um fato desagradável, envolvendo um jovem ou uma centena deles, não devem ter a força de interromper a trajetória de toda uma juventude de uma escola, de uma cidade ou de um país.

                E esse aprendizado se fortalece em outros dois. Com o educador português António Nóvoa validei certezas. Disse ele que “devemos agir como humanos, para os humanos”, pelo bem da humanidade. Então, outro educador português, José Pacheco, sentenciou: “não há aprendizado sem vínculo”.

                Promover vínculos não é tarefa das mais fáceis. Mas os exemplos citados pelo criador do projeto “Escola da Ponte” clarificam que sentir-se amado é condição primeira para aquele que não sabe, conseguir aprender. É para aquele que sabe, efetivamente, ensinar.

                Demonstração de vínculo pode ser vista na homenagem à professora Maris Estela Souza, que recebeu o carinho dos ex-alunos e deixou evidente que uma vez estabelecido o vínculo entre  o professor e o aluno, ele se eterniza em fonte de boas lembranças. Mas não parou por aí. Marina Colasanti e Inácio de Loyla Brandão convergiram em uma mesma assertiva: “somos felizes quando fazemos o que escolhemos fazer”. Ninguém ousou discordar.

                Lya Luft, ainda que de longe, pareceu tão perto. Ela contou sobre seu desconforto ao inaugurar uma biblioteca com seu nome em um presídio em sua cidade. A tristeza da escritora estava no fato de que após a cerimónia ela sairia do prédio es as detentas ficariam. Mas ela consolou como pôde, afirmando que “os livros libertam”. A premiada Nélida Piñon foi definitiva ao afirmar: “a literatura salva”. Zuenir Ventura quis retribuir tudo o que ganhou e depois de olhar para aquela plateia de mil estudantes, não exitou, ofereceu o que de melhor ele leva sempre consigo: abraços. Posicionou-se em um ponto estratégico e abriu os braços, alargou o sorriso e estabeleceu um vínculo que poderá nunca ser quebrado: o da amizade. Um atrás do outro abraçou e beijou todos que quiseram.

                Por fim, somente para finalizar com esses seis aprendizados, a Feira do Livro termina, e eu sigo mais convicta de que Fernando Pessoa sempre esteve certo: tudo vale a pena.

Adriana Silva
Presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto 
Ribeirão Preto, 18/06/17

Nosso comentário: querida Adriana Silva, o seu texto está com uma elaboração magnífica, de elegância e profundidade. Meus sinceros parabéns, abrangendo também a organização e a importância de seus convidados, sobretudo aqueles a que vc se referiu e que eu tive o prazer de assistir. Acredito que tenham sido os maiores expoentes, sobretudo, tratando-se de um tema de superior importância, como a educação.

Não obstante, apenas um pequeno detalhe, enquanto não houver a coragem de colocar o ensino filosófico existencial com base no espiritismo como curriculum escolar, o avanço científico e educacional serão sempre inconsequentes…

Alberto Maçorano