O título desta crônica é o de uma palestra desenvolvida no Centro Espírita Allan Kardec, em Santos-SP.
  A princípio questionei a partícula “único”. Por que único? O que denota exclusividade? Certamente não podia ser aplicado ao ser individual, que é multiplicado na população terrena.
  Mas é possível analisar o ser humano enquanto “único” num mundo diversificado, considerando sua individualidade e também enquanto gênero.
  O ser humano, pela teoria espírita, é o resultado de um longo processo de maturação de um princípio espiritual que evoluiu da simplicidade e da ignorância para o estágio da razão e do sentimento. Essa tese, no aspecto físico e ambiental, está mais ou menos conforme a teoria darwiniana da seleção das espécies, embora sob um novo ângulo.
  Mas difere substancialmente das crenças espiritualistas e religiosas que atribuem à criação divina o surgimento do homem e depois da mulher, como seres acabados, mais ou menos na forma atual.
  Já a ciência, descompromissada com a ideia de Deus, atribui a existência do ser humano a uma combinação aleatória de fatores genéticos, na cadeia de mamíferos.
  Sociológica e politicamente, o ser humano vem caminhando em alternativas de criação, recriação, reformulação de sistemas econômicos, políticos e sociais, alcançando etapas progressivas, com desníveis consideráveis no conjunto da sociedade humana, matizada por ideologias, crenças religiosas, superstições e disputa pelo poder.
  Examinando esse “ser único”, podemos dizer que ele é, simultaneamente, um ser do ser, um ser físico e um ser psicológico, mantendo-se, todavia, uno.
  O ser do ser é a essência do ser em si mesmo e define sua estrutura íntima, reduzida à sua natureza natural. Ou seja, em relação ao ser humano, é o Espírito em si mesmo, sem nenhuma designação, nome ou forma. Isso pode, sob certas condições, aplicar-se também ao animal que, sendo um princípio espiritual em transição para tornar-se um Espírito é, também, um ser do ser.
  O ser físico é a condição da relação do ser do ser, ou Espírito ou princípio espiritual, com formas orgânicas e corporais, no desencadeamento de seu desenvolvimento.
  Já o ser psicológico é uma condição exclusiva do ser humano.
  Entendemos como “psicológico” o conjunto de qualificações humanas relativamente à razão e ao sentimento. Aí temos a formação de uma tríade ou triângulo, em que os lados se completam, formando uma unidade.
  Examinando as exclusividades humanas, temos que destacar duas posições importantes.
  O ser humano é único na sua solidão.
  O ser do ser, embora trabalhado pelo processo que o transforma de um princípio num Espírito é, por sua natureza, solitário. Ou seja, as emoções, pensamentos, ideias que lhe habitam a mente são exclusivas, intrínsecas e imperscrutáveis.
  As relações eu/tu, que definem a natureza social, estabelecem um elo, um liame de comunicação, mas não eliminam a natureza solitária da pessoa. Esta solidão é atenuada quando as ligações são afetivamente compensatórias, seguem para uma completude, uma parceria e uma cumplicidade, descobrindo caminhos semelhantes, idênticos, ao nível das vibrações específicas no campo da integração mente a mente.
  Mas isso é um processo que, na etapa evolutiva atual, nem todos conseguem. Ainda assim, permanece a intimidade indevassável da pessoa, na sua estrutura que, segundo a Psicanálise, ela mesma desconhece.
  Mas existe outra condição em que o ser humano é único.
  Trata-se da sua exclusiva competência e necessidade de estabelecer e desenhar o próprio destino.
  Nos reinos anteriores o princípio espiritual segue, na sua condição de ser físico, uma linha determinística inexorável, tipificada pela repetição de comportamentos e formas de atuação no ambiente.
  Mas quando o ser do ser atinge o nível humano, conquista o livre-arbítrio, que o torna capaz de utilizar de forma racional e consciente os recursos que já possui no campo dos automatismos comportamentais e de apreender, ordenar, utilizar e concluir sobre novas experiências vivenciais.
  Na verdade, o livre-arbítrio é a condição básica sem a qual seria impossível haver o “ser psicológico”.
  Nesse sentido, não é possível desconhecer o gênio de Freud ao propor uma estrutura para o ser psicológico. De um lado, com o conjunto do id, representando o acervo pulsional, instintual do ser, o ego, sua atuação no mundo real, na busca da relação com o outro e o superego, que é a sua imersão no mundo moral, dos valores e que o torna um ser psicológico. De outro lado, o inconsciente, depósito de emoções recalcadas, porém vivas, o pré-consciente, sede da memória e o consciente, a face atual da pessoa na sua relação com o ambiente.
  Essa complexidade de situações é que tornam o ser humano único, porque tem condições de lidar com uma multiplicidade de pressões, realizar operações mentais simultâneas e atuar no ambiente de forma positiva, transformando-o.
  Os fatores que se combinam, na medida de avanço de sua ascensão, usando seu livre-arbítrio, detém-se nos valores morais que, a partir de um dado momento, decidem sua felicidade ou infelicidade, dentro de um quadro diverso e, não raro, conflitante.
  Mas esses fatores, que parecem muitas vezes adversos e imprevisíveis, são justamente os que lhe garantirão, no desenrolar de sua vida imortal, o equilíbrio básico que chamamos de perfeição, palavra que, entretanto, não qualifica exatamente o que será alcançado, pois são condições que escapam ao nosso conhecimento e sentimentos atuais.
  Continua obscuro o objetivo da criação humana, sob o ponto de vista de sua destinação. Claro que a existência das criaturas humanas é justificada pela sua atuação no ambiente, modificando-o e também, pelo relativo progresso constantemente alcançado pelo uso da inteligência, criatividade e engenhosidade.
  Mas qual o objetivo da Divindade ao criar o universo, dotá-lo de condições de agasalhar seres vivos cada vez mais avançados até a criatura humana, prossegue incógnito.
  Por fim, parece justo também afirmar que o ser humano é único na possibilidade de sobreviver ao corpo físico, mantendo sua identidade e voltar a encarnar-se sem perder seu acervo evolutivo, embora se submetendo a um novo processo vivencial, diferenciado do anterior e assim sucessivamente.

Fonte: Jornal de cultura espírita “Abertura”, julho de 2001, ano XIV, nº 160 – Santos-SP.

Jaci Regis (1932-2010), psicólogo, jornalista, economista e escritor espírita, foi o fundador e presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), idealizador do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), fundador e editor do jornal de cultura espírita “Abertura” e autor dos livros “Amor, Casamento & Família”, “Comportamento Espírita”, “Uma Nova Visão do Homem e do Mundo”, “A Delicada Questão do Sexo e do Amor”, “Novo Pensar – Deus, Homem e Mundo”, dentre outros.

Publicado por Nilza Garcia, em 18/04/16, na rede Espirit Book