Nem se o povo (o que é esta “entidade”?) sair às ruas vestindo camisas da seleção brasileira Temer cai. Só se estatela no lodo se levar uma rasteira do presidente da Câmara.

Aconteceu a denúncia do Procurador Geral da República, demonstrando que Temer recebeu um chantagista e indicou-lhe o deputado Rocha Loures para “conversar”, o que culminou com a entrega daquela mala de dinheiro. A partir daí tudo passou a ser uma farsa.

A denúncia de corrupção passiva está na Comissão de Justiça da Câmara. O defensor de Temer, um dos advogados mais caros do país, repete o que o presidente diz: não houve crime e nem é pecado receber clandestinamente na residência oficial, na calada da noite, um bandido de colarinho branco. Menos ainda, indicar-lhe o intermediário para negócios mal explicados, mas, que todos sabem quais são.

Porém, embora se discuta a denúncia e se ouça a defesa, isto não importará na hora decisiva. O que prevalecerá são os conchavos que determinam a conveniência de cada lado. Quem pode mais chora menos, o resto é jogo de cena para a imprensa engolir e desinformar a opinião pública.

Temer só será cassado ou absolvido dos crimes que todos sabem que ele cometeu se fracassar no confronto de interesses. Se ele puder “sensibilizar” mais deputados, livra-se. Se os deputados decidirem que é mais lucrativo enterrá-lo, estará morto.

Atualmente (e sempre) a politicanalha é uma questão de mercado. No toma-lá-dá-cá entre corruptos, fatos e argumentos, provas e contraprovas pouco valem. O que decide é o cacife de cada jogador. Não adianta reclamar nem se indignar: esta é a democracia que escolhemos representada pelos patifes que elegemos.

Júlio Chiavenato
Jornal A Cidade, Ribeirão Preto, 07/07/17 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: esta é a realidade brasileira, infelizmente, que estamos vivenciando. É caso para questionamento: como um sistema democrático pode funcionar sem dispor de mecanismos de punição autênticos quando os seus prevaricadores fazem parte das cúpulas governamentais, incluindo o legislativo e o judiciário? Como um sistema democrático autêntico pode permitir “foro privilegiado” a seus componentes governativos se algum deles estiver sob a alçada da justiça? Como um sistema democrático autêntico se permite que os seus componentes sob a alçada da justiça se recusem cumprir determinações da justiça? Quem tiver a resposta adequada sem ferir o autêntico sistema democrático que no-la diga, pois será muito bem-vinda.

Alberto Maçorano