O professor Raimundo tinha um aluno engravatado e engomadinho que sabia tudo. Era Ptolomeu, o cdf da classe. O procurador Deltan Dallagnol parecia aquele arrumadinho.

Bom aluno, fez o discurso que o mestre ensinou. Deslumbrou-se com os gráficos e abusou dos adjetivos para repetir o que a imprensa noticia há quase dois anos.Mas esqueceu de oferecer provas concretas para embasar a ação legal.

                Isto não inocenta Lula, mas demonstra como a Operação Lava Jato e seus derivados já não escondem a ojeriza moralista contra gente fora do padrão convencional do poder e que erra a concordância gramatical. Aliás, o procurador também errou à beça.

                A Lava Jato e o juiz Sérgio Moro fizeram um trabalho decisivo para configurar a corrupção e mandar para a cadeia alguns dos chefões do empresariado e da política. Dispensava-se o espetáculo do procurador, expondo-se à crítica de que persegue alguns suspeitos, atrapalha candidaturas incómodas ao novo poder, ao mesmo tempo em que releva os delatados que formam o grupo hoje dominante. Se querem nomes, dois: Serra e Aécio.

                A corrupção está entranhada no sistema social e político. É necessário investigar como e porque o Estado permite e tolera durante anos o roubo do dinheiro do povo. Os moralistas de plantão fogem dessa análise estrutural e abusam da indignação fácil.

                O sistema de privilégios e desigualdades sempre produzirá os lulas, aécios e alckmins, serras, cunhas, renans e tantos outros, crias de uma estrutura podre que os espetáculos justiceiros destacam apenas de acordo com as circunstâncias. Seria bom menos firula e mais solidez.

Júlio Chiavenato 
Ribeirão Preto, 18/09/16 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: grande Chiavenato, neste vertente caso, o senhor virou mestre das palavras. Só uma grande capacidade intelectual poderia fazer uma análise tão sucinta mas objetiva de um espetáculo circense como o deste neófito procurador. Afinal de contas, apesar de ter sido um dos primeiros a bradar contra o “surto” desse cidadão, constatei que não estou só nem mesmo por ser grande admirador de Lula.

Todas ou quase todas as entidades responsáveis e idóneas, mesmo a nível jurídico, condenaram veementemente, a conduta esdrúxula de um representante da lei.

                A história se repete, para aqueles que estão por dentro desse conhecimento. Todos os movimentos que nasceram “puritanos” em defesa de uma causa, acabaram por ser corroídos pelas próprias entranhas da volúpia do poder. Começando pelos fatos mais recentes: desde, talvez o maior império de todos os tempos, o Império Romano, que para facilitar a sua governança pela sua extensão se desdobrou em dois: o Império Romano do Ocidente com capital em Roma, e o Império Romano do Oriente com capital em Constantinopla, hoje, Istambul. Esse fabuloso império que fez um trabalho extraordinário na defesa dos princípios jurídicos, que até hoje se fala nesse campo: “o direito romano”… Mesmo assim, acabou sendo destruído pelos seus próprios governantes – imperadores – através da corrupção generalizada e dos “bacanais” a que se dedicaram, sendo engolido pelos vândalos da época,  constituindo-se uma grande diversidade de países.

                Posteriormente, aconteceu o mesmo com o grande Império Russo dos Czares, com a grande França da época do Palácio de Versalhes, com a revolução francesa de 1789, tornando-se um marco na história da humanidade. Os revolucionários genuínos acabaram também por ser engolidos pelos radicais e virou uma ditadura de Napoleão Bonaparte. Antes disso surgiu na Europa um “reino do Terror” a famosa e triste Inquisição do Tribunal do Santo Ofício. Quem não souber ou conhecer esse triste episódio da humanidade, seria bom fazer uma “sabatina na internet”. Em nome de Deus, cometeram-se as maiores “loucuras sanguinárias” que a humanidade já conheceu. Imaginem que a palavra de “honra” era defendida queimando as pessoas vivas na fogueira da “purificação”, tendo como expoente a valente e heroica Joana D’Arc. Depois veio o tenebroso Hitler e agora aqui neste imenso Brasil vocacionado a ter um papel preponderante no futuro espiritual, aparece esse movimento Lava Jato que começou por ter um papel inibidor na destruição dos tentáculos da corrupção e agora virou um triste espetáculo de caça “às bruxas” de inimigos de ideais, mantendo-se a corrupção em outros setores. Então, nada ou quase nada se ganhou de concreto. Porque as mordomias dos políticos e governantes se mantêm e a miséria social continua do mesmo jeito. Então, o que se ganhou de concreto neste “mini governo” dentro do principal governo do Brasil? Parece que nada, ou vamos ver no que vai acontecendo nos espetáculos de pirotecnia… O mais interessante é que nada acontece a esses tais que se consideram acima da lei…

Alberto Maçorano