No ano de 1980, acompanhado pelos amigos Nilson de Souza Pereira e Juan Antônio Durante, dileto confrade argentino, visitei a Grécia pela primeira vez.

Em Atenas, após o entusiasmo natural, caminhando pelas ruínas históricas que nos conduziam às glórias do passado, detivemo-nos sobre os escombros do Areópago, onde o Apóstolo Paulo pela primeira vez apresentou Jesus aos  curiosos que acorreram ao nobre recinto.

Recordamo-nos das suas primeiras palavras, que encantaram o público até o momento em que ele se referiu à imortalidade, fazendo um panegírico à Ressurreição.

As mentes aturdidas pelas várias correntes da filosofia utilitarista e pessimista, pelos velhos atomistas, permitiram-se fortes gargalhadas de escárnio e abandonaram o local, deixando o intimorato divulgador do Evangelho profundamente abatido. Ali, quase dois mil anos após, psicografamos, ao ar livre, separadamente Juan e nós, mensagens pertinentes ao acontecimento.

A verdade é que o glorioso pregador retornou a Atenas posteriormente e a conquistou para Jesus, após haver passado por algumas das suas ilhas, que ficariam imortalizadas em suas cartas memoráveis.

Recentemente, no mês de julho passado, conduzido por amigos espíritas devotados e gentis, voltamos à Grécia, mantendo na memória as imagens  que nos impressionaram por ocasião da primeira visita.

Estivemos em algumas das suas ilhas famosas e procuramos encontrar na poeira do tempo as pegadas ao Apóstolo das gentes.

Não faltam templos de diferentes credos cristãos, para celebrações mais profanas que religiosas, nem as ondas turísticas, a invadir todos os recantos, como aeroportos, hotéis e estradas superlotados, não deixando perceber a presença de Jesus nos comportamentos. Prazeres multiplicados, de qualidades variadas para todos os paladares, que atraem os caçadores de divertimentos, especialmente sexuais, transformaram-se num dos mais valiosos recursos para atrair multidões esfaimadas.

Aguardávamos que o retorno a Atenas, a veneranda cidade multimilenar, pudesse ensejar-nos visão diferente, o que, infelizmente, não aconteceu.

A volúpia do prazer em todo lugar é uma constante.

Estes são dias bem parecidos com aqueles em que o apóstolo, fascinado por Jesus, saiu cantando- lhe os poemas libertadores e as canções de imortalidade.

A sua voz e as suas cartas permaneceram como clarins ressoando ao passar dos séculos, a fim de que não nos esquecêssemos da mensagem que o felicitava.

Nenhum sofrimento diminuiu-lhe o entusiasmo e o amor pelas criaturas humanas, às quais se oferecia como exemplo de plenitude.

As ilhas e terras queridas, como Corinto, Galácia, Colosso, Tessalônica, Filipos e Éfeso o receberam e, embora algumas inicialmente o rejeitassem, foram honradas, todas, com as missivas iluminativas que ainda hoje servem de roteiro e de segurança para os seus discípulos, os quais, acima de tudo amam Jesus, ainda guardam vestígios históricos das suas jornadas sublimes. No entanto, os monumentos que as embelezavam, hoje em destroços e ameaçados pelo fanatismo religioso, são símbolos da grandeza do herói da verdade.

Não tivemos a oportunidade de visitar essas cidades e regiões que foram privilegiadas pelo seu verbo, com exceção de Éfeso, que conhecemos em outra oportunidade, mas que não guardam a mensagem do mártir nas comunidades que as habitam.

Existem templos de pedras, em ruínas uns, mais recentes outros; entretanto, e a despeito da ganância, dos ódios multiplicados e das lutas de classe, os “filhos do Calvário” avolumam- se em toda parte, sem permitir-se a iluminação ou a transformação moral, ficando conscientes do Reino dos Céus.

A poeira inexorável dos tempos asfixiou a mensagem do apóstolo.

Mesmo em Atenas, onde ele triunfou como mensageiro da esperança e da alegria de uma existência feliz, não encontramos as suas pegadas, agora cobertas pelo asfalto da modernidade ou sob as colunas arrebentadas do Areópago, do Parthenon e dos bairros periféricos mais pobres onde ele conviveu com os desafortunados, aos quais ofereceu a certeza da imortalidade.

Examinando a situação do mundo atual, dos conflitos e dores que tomam conta das criaturas, da fragilidade das religiões que, comprometidas com o século, não têm muito a oferecer, recordo-me do apóstolo dedicado, suplicando-lhe que a todos os cristãos nos inspire viver conforme as diretrizes austeras e amorosas do Evangelho, dando a existência, se necessário, para a construção da sociedade feliz do amanhã.

Neste momento de transição planetária, quando as crises de toda ordem se abatem sobre o ser humano, quase vencido pelas paixões tormentosas, que possamos, os espíritas, os cristãos novos, restaurar o pensamento de Jesus conforme o fez Paulo de Tarso, orientando as vidas para a plenitude, única maneira de preencher o vazio existencial que a muitos infelicita neste mundo.

ReformadoR – FEB

Postado por Nilza Garcia, em 13/12/16, na Rede Espirit Book