Na subliteratura, no teatro e no cinema, o culpado era o mordomo. Não ficava bem mostrar criminosos e ladrões das classes dominantes que, afinal, nomeavam os censores para cuidar dos bons costumes. Na escola aprendemos que os barões construíram a pátria e nunca roubaram.

Hoje, os mordomos são os políticos. Eles recebem as pancadas e não reclamam. Apenas se defendem, alguns com o dinheiro das suas vítimas. O último caso foi o de Temer, acusado de corrupção, para se livrar de ser o mordomo da hora, saqueou o Estado em R$ 150 milhões para que outros suspeitos votassem a seu favor na Comissão de Justiça.

Os políticos acreditam que a punição, se houver, é menor do que o lucro que o crime possibilita. Já os seus corruptores, empresários que não podem apresentar o mordomo para pagar o pato, devolvem algumas centenas de milhões de reais e mandam os bilhões roubados do povo aos paraísos fiscais.

A “conciliação” é cómoda para o sistema. Enquanto se faz um teatro fingindo que se procura o mordomo, mantém-se a estrutura que permite a corrupção sistémica e financeira do processo político que, por sua vez perpetua a dominação de classes e impõe, através das instituições, as ideias dominantes.

Quando se vê um emissário do presidente da república pegando a mala de dinheiro e o rei dos malandros gravar uma conversa incriminadora com ele, na calada da noite e clandestinamente – e depois tudo é revelado e objeto de investigação da justiça, muita gente pensa que se procura o ladrão do dinheiro público.

É isto, mas como farsa. Porque nas coxias desse teatro outros ladrões (às vezes os mesmos) estão prontos para entrar em cena e garantir o sistema.

Júlio Chiavenato
Jornal A Cidade, Ribeirão Preto 20/07/17 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: como está tudo explicado em detalhes, escusa o nosso comentário. Apenas divulgamos a excelente narração e desenvoltura de uma triste realidade.

Alberto Maçorano