Para Rivail, a ciência, em plena ebulição na época, ainda tinha muito a descobrir e revelar. Ondas eletromagnéticas, feixes de luz, vapor transformado em pressão mecânica, calor e magnetismo estudados como fontes de energia, e não mais como “fluidos imponderáveis”. A cada dia, pesquisadores anunciavam descobertas mais impressionantes e transformavam o impossível de tempos atrás em evidências científicas e invenções revolucionárias.

Tudo parecia possível no século XIX, inaugurado com a locomotiva a vapor de Richard Trevithick e iluminado, na reta final, pelas lâmpadas incandescentes de Thomas Edison. Criações quase milagrosas. Era como se o homem virasse Deus ou sua extensão, para finalizar ou aperfeiçoar a obra iniciada por Ele.

“Que obra Deus fez!” Não por acaso foi esta a primeira mensagem enviada por Samuel Morse ao inaugurar sua invenção: o revolucionário telégrafo, que dizimou distâncias e aproximou os homens ao transmitir informações através de mares e continentes em velocidade impressionante.
Mas nem todos faziam reverências a tanta modernidade.

“As coisas estão sobre a sela e cavalgam a humanidade”, alertava o escritor Ralph Waldo Emerson em 1847, preocupado com tamanha devoção aos avanços tecnológicos num mundo onde Deus já não era mais tão Todo-Poderoso assim. No conto de Nathaniel Hawthorne, “Celestial Railroad” (“Ferrovia celestial”), passageiros embarcavam numa locomotiva barulhenta e fumegante rumo ao inferno.

E nem tudo era verdade ou avanço entre tantos feitos. Melhor estar atento para não se deixar levar por embustes, como a exibição do esqueleto de uma sereia no Museu Americano — obra de um gaiato chamado Barnum, realizada com rabo de peixe e cabeça de macaco — ou como os shows de levitação e “materialização de espíritos” promovidos por ilusionistas que, em vez de se anunciarem como mágicos, vendiam-se como magos.

Neste cenário marcado por milagres da ciência e golpes de farsantes, as mesas girantes atraíam multidões engalanadas e dividiam opiniões. E esta agitação era só o começo. Em pouco tempo, as mesas passariam também a transmitir mensagens, ao som de pancadas certeiras, como telégrafos saltitantes.

Uma pancada, letra A, duas pancadas, letra B, e assim sucessivamente, até se formarem palavras, frases e textos inteiros.

Diante do frenesi causado pelas mesas girantes e agora parlantes, os jornais de Paris passaram a publicar artigos irônicos e charges divertidas sobre a nova mania nacional.

Numa série publicada no L’Illustration, em julho de 1854, uma mesa mignon, bem-torneada, oferecia seus préstimos profissionais aos interessados:

Jovem mesa, de exterior simpático, que fala várias línguas e conhece um pouco de aritmética e muitas histórias, pede um lugar de intendente de finanças.

Em outro cartum, um estudante, recostado em sua cadeira, cruza os braços, enquanto a mesa à sua frente, lápis preso a uma das pernas, faz o dever de casa:

Os castigos escolares… Ora! Deles não mais faço caso. As mesas foram feitas para trabalhar, portanto faço trabalhar a minha.

Em outra charge, um senhor de fraque repreende o jovem, cartola à mão, cabisbaixo:

Como é possível? É então você, infeliz rapaz, que mantém criminosa correspondência com a mesa de costura de sra. Coquardeau!?

E, na cozinha de outra residência, o comissário de polícia interroga a dona de casa:

— Dissestes que vossa cozinheira vos furtou, mas e as provas?
— Senhor comissário, eis a mesa da cozinha, que está pronta para depor por escrito.

Muita gente, porém, levava a sério as tables mouvantes e parlantes. Ao encostar os dedos mindinhos nos dedos mínimos dos seus vizinhos de assento e assim “fechar a corrente” na casa da sra. De Plainemaison, Rivail se uniu a um grupo de estudiosos dispostos a encarar os rodopios e ditados das mesas como objetos de estudo e não como meios de diversão.

O professor estava disposto a dar crédito à anfitriã — considerada respeitável e confiável pelos velhos conhecidos —, mas só decidiu apostar na sua boa-fé depois de inspecionar, com a devida discrição, o ambiente iluminado por velas e candelabros, em busca de sinais de traquitanas ocultas. Nenhum, ímã ou roldana à vista. “Concentrem-se, por favor. E que Deus nos abençoe nesta noite.”

Uma breve prece antecedeu o longo período de silêncio, só interrompido pela passagem de carruagens do lado de fora, pelo tique-taque dos relógios de bolso e por tosses esporádicas. Rivail já pensava em se retirar, para preparar as aulas do dia seguinte, quando ouviu estalidos sobre os tacos e testemunhou o primeiro movimento da mesa.

Se pudesse erguer as mãos, anotaria, com o máximo de isenção, suas impressões sobre aquela noite, sem tomar partido — ainda — de nenhuma das linhas de investigação dos fenômenos existentes até aquele momento. Ele já conhecia os principais argumentos e interesses em jogo neste território nebuloso, onde fé e ciência mediam forças na então capital cultural do mundo, berço de iluministas consagrados.

Trecho do Livro:
Kardec, a Biografia por Marcel Souto Maior

Postado por Ana Maria Teodoro Massuci, em 08/06/16, na rede Espirit Book

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