A mensagem do espírito Humberto de Campos, o Irmão X, recebida pelo médium Chico Xavier em 19 de Abril de 1935, descreve seu encontro e diálogo com Judas:
“(…) Os espíritos podem vibrar em contacto direto com a história e buscando uma relação íntima com o passado vivo dos Lugares Santos. (…) Os espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram. (…) Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho. (…)

Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, onde o Precursor (João Batista) batizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. (…)

– Sim! Sou Judas! – respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica. – Como o Jeremias das Lamentações, contemplo, às vezes, esta Jerusalém arruinada, meditando nos juízos dos homens transitórios. (…) Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias do Mestre, porém, o meu excessivo zelo pela doutrina fez-me sacrificar o seu fundador. Acima do meu coração eu via a política como única arma com a qual poderia triunfar; e que Jesus não obteria nenhuma vitória com o seu desprendimento pelas riquezas. (…) Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje, na Terra, visando a queda de um chefe de Estado. (…) Entregando, pois, o Mestre a Caifás, não julguei que as cousas atingissem um fim tão lamentável; e ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.

– E chegou a salvar-se pelo arrependimento?

– Não! Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois de minha morte trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus; e as minhas provas culminaram na fogueira inquisitorial, onde, imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. (…) Desde esse dia, em que me entreguei, por amor ao Cristo, a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentindo na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência. (…) Pessoalmente, já estou saciado de justiça porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores. Quanto ao Divino Mestre, infinita é a sua misericórdia e não só para mim, porque se recebi trinta moedas, vendendo-o aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo, a grosso e a retalho, por todos os preços, em todos os padrões de ouro amoedado.

– É verdade! – concluí – e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.

Judas afastou-se tomando a direção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençol de águas mortas procurando um mar morto.”

Humberto de Campos  e  Francisco Cândido Xavier

Postado por Nilza Garcia, em 15/09/16, na rede Espirit Book.