A virada portuguesa contra o domínio do capital controlando salários e retirando direitos dos trabalhadores começou em Abril de 2013. Vi de perto as manifestações contra a submissão do governo ao mercado.

Em poucos anos liquidou-se a ilusão de que enriquecendo os ricos a vida dos pobres melhoraria. Enriquecer os ricos é contentar-se com as migalhas que eles derrubam da mesa. No Brasil, nem isso. Nossa classe dominante é mesquinha e, se puder, faz o futuro voltar ao passado: na reforma trabalhista há a tentativa de se pagar o lavrador com comida. Voltaríamos ao regime da escravidão, quando se “comprava” o trabalho com os restos da casa grande. Mais um pouco e proporão o tronco.

Na França vimos a saída da direita e a derrota da esquerda, desprezadas pela arrogância de uma e pela inoperância de outra.

Na Inglaterra o povo votou contra a primeira ministra. Nestes países prevalece a opinião pública. Em Portugal, na França e na Inglaterra nenhum governo sobrevive contra o povo.

No Brasil é diferente. Aqui, o presidente com mais de 80% de rejeição e apoiado por partidos desmoralizados fica no poder e comete atos condenados pela maioria, porque controla o Congresso e tem ajuda de forças econômicas retrógradas.

Não se duvida que Temer está afundado em corrupção, ligado a arrecadadores de propinas. Não há dúvida sobre o repúdio dos trabalhadores às reformas da Previdência. Mas o presidente, com os seus principais ministros investigados por corrupção, usa o troca-troca político para comprar sua permanência no poder.

Essa situação é fruto da covardia política, do medo das mudanças e, infelizmente, também da nossa imaturidade como nação.

Júlio Chiavenato
Jornal A Cidade, Ribeirão Preto, 20/06/17 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: outra pérola do grande jornalista Júlio Chiavenato. Só ele para traduzir por palavras adequadas e profundo conhecimento e seriedade, a miséria política e administrativa que o Brasil atravessa neste momento. Parabéns pelo seu profissionalismo.

Alberto Maçorano