Muito longe daqui, no sul da África, não muito tempo atrás, vivia uma tribo que não usava sapatos. Para que sapatos se a areia era macia, a grama também?

Mas às vezes as pessoas tinham que ir à cidade. Para resolver um assunto, um negócio de cartório, hospital, ou receber dinheiro ou até mesmo ir a uma festa. Aí eles precisavam de sapatos, e era um tal de pedir emprestado, que nunca dava certo.

Foi então que o velho mais velho da vila que, como tantas vezes acontece, era também o mais sábio, resolveu o problema. Ele abriu uma tenda de aluguel de sapatos.

Instalou-se à sombra de uma grande árvore e em seus galhos pendurou sandálias, chinelos, alpargatas, botas, botinas, sapatos de salto alto, fechado atrás, aberto atrás, sapato de casamento, para enterro, de todas as cores, tipos e tamanhos.

As pessoas alugavam o sapato que queriam, iam para a cidade resolver seus assuntos e, na volta, devolviam. E, claro, tinham que pagar aluguel.

Sabe qual era o aluguel?

No fim da tarde, depois que todo mundo já tinha terminado o serviço, tomado banho no rio, jantado, o povo da vila se reunia para ouvir a pessoa que tinha alugado o sapato contar, com todos os detalhes, por onde aquele sapato tinha andado.

* * *

Que histórias nossos sapatos contariam sobre nós e sobre os caminhos que temos trilhado?

Para onde nossas escolhas têm nos levado? O que temos feito de bom e de não tão bom?

Em um exercício de memória, de que fatos nos lembramos em que fizemos algo verdadeiramente bom, mesmo que ninguém tenha sabido?

Que atos de gentileza, de carinho, tolerância e compreensão realizamos, diante de irmãos necessitados?

Que caminhos temos seguido: os do amor e do preparo para a vida espiritual ou os do egoísmo e da maledicência?

Apontamos os defeitos do outro sem olhar para os nossos?

Criticamos tudo e todos, constantemente insatisfeitos com o que recebemos? Ou nos lembramos de agradecer pelo que temos e pelo esforço que outros fazem para que tenhamos o que precisamos?

Nossas escolhas têm sido feitas pautadas pelos ensinamentos do Mestre Jesus, que nos conclamou a amar e perdoar?

Ou temos sido orgulhosos e egoístas, nos colocando em primeiro lugar e deixando os outros para trás?

Se nossos sapatos pudessem dizer o que temos feito e que caminhos temos trilhado, ficaríamos tranquilos ou nos sentiríamos preocupados com o que descobririam sobre nós?

Deus tudo vê. Ele tudo sabe. Não precisa que ninguém conte a ele o que fazemos.

Que possamos parar um minuto para refletir sobre nossos atos nos últimos dias, meses, anos. Se estamos no caminho do bem ou se precisamos fazer uma urgente correção de rumo.

Que nossos pés, nossos atos, nossos pensamentos, sejam direcionados para a luz, a caridade, a benevolência.

E se for preciso doar nossos sapatos para aqueles que não os têm, que sigamos descalços, sob a proteção do amor e com a certeza de que fizemos uma boa escolha.

Redação do Momento Espírita, com
base em conto de Mia Couto.

Postado por Ana Maria Teodoro Massuci, em 23/05/18, na Rede Espirit Book