Quando se trata de ideias e conceitos ideológicos, como religião e política, a permanência se transforma em prevalência. Se as instituições impõem a permanência de certos comportamentos, condicionados por preconceitos ou forçados pelas circunstâncias, tais ideias dominantes tornam-se prevalentes.

Fácil demonstrar. O Vaticano decidiu que a hóstia deve ter glúten. A hóstia começou como um costume permanente. Prevaleceu com o uso. Atravessou os séculos e hoje não se debate sua substância teológica (ou mitológica), mas quais ingredientes a compõem. O “corpo de Cristo” é tratado como um alimento por uns e veículo da transubstanciação por outros: por isso deve ter certos componentes.

Quem não tem nada com isso (citado apenas como exemplo), deveria calar-se. Em outras coisas, porém, a prevalência de ideias permanentes na vida social diz respeito a todos. Por exemplo, o acatamento ao rito processual na política.

Neste caso o cinismo alia-se à hipocrisia. Os gregos, tidos como interventores da democracia, na verdade estabeleceram o critério da superioridade das elites sobre as massas e justificaram, com os argumentos para garantir a submissão dos excluídos, as fórmulas que prevalecem hoje.

Ladrões com grana acumulada merecem tratamento diferenciado. O Estado cinicamente aparenta equanimidade, mas na prática restabelece a sua ordem, reciclando os meios de dominação.

A fantástica trajetória do permanente ao prevalente se manifesta em todas as áreas da sociedade. Não se indaga se o corpo de Cristo está em um biscoito. Mas se o biscoito tem ou não glúten. Também assim, “nossa” democracia não quer pôr Temer na cadeia: apenas trocá-lo por outro.

Júlio Chiavenato
Jornal A Cidade, Ribeirão Preto, 12/07/17 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: a sua crónica merece ser divulgada. Por isso, sempre que oportuna, eu o farei, em homenagem ao seu discernimento em enxergar a hipócrita realidade política e administrativa do Brasil, fazendo dos seus cidadãos autênticos palhaços.

Alberto Maçorano