Juntem o que cientistas políticos, sociólogos e os doutores escreveram sobre a política nos últimos 30 anos. O que sobra?

Quase nada. Ninguém antecipou a podridão que corroeu o Estado, desmoralizou a política, apodreceu a sociedade e criou o caos atual. Pelo contrário, não faltam os iludidos que iludem. Para eles a globalização e a internet construíram um novo mundo. Raros perceberam que não havia construção, mas a derrogada de valores seculares – que bem ou mal balizavam as relações humanas.

Acreditem nos clássicos. Eles analisam e antecipam a miséria social. Descartem os escritores fáceis, com o euzinho preso ao umbiguinho freudiano subliterato. Leiam os grandes, quase esquecidos.

O conto “A enfermaria 6”, de Tchekhov, “serve” para o Brasil. Quem sabe ler encontrará nossos juízes, políticos, burocratas, algozes e vítimas, no cosmo multifacetado que Borges chamaria de História Universal da Infâmia, tratando da loucura para explicar o mundo que produz a miséria humana.

Trecho: “(…) Os males desta vida e todas as suas vilanias são necessários, já que se convertiam com o tempo em qualquer coisa de útil, como o estrume em terra negra. Não há no mundo bem que na sua origem não contivesse uma ação abjeta”. Dentro do contexto, o aparente conformismo não se limita ao tempo ou ao espaço: é um bisturi expondo as entranhas de qualquer sistema de poder.

A torpeza dos políticos, o provincianismo de Sérgio Moro, o despudor de Gilmar Mendes, a corrupção dos políticos e o cinismo dos “críticos” ao tratarem esta gente com respeito hipócrita, tudo é uma enfermaria controlada aos tapas por um déspota vulgar. Porém, ninguém lê mais nada.

Júlio Chiavenato
Jornal A Cidade, Ribeirão Preto, 22/06/17 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: tenho uma admiração muito grande por esse extraordinário jornalista e profundo conhecedor do quotidiano. Por isso vale a pena consumir algumas das suas crónicas, sempre oportunas e coerentes com a atualidade da sujeira que corrói o cenário político e administrativo do mártir Brasil.

 

Alberto Maçorano