A Câmara Municipal de Ribeirão Preto reflete a sociedade. Na legislação passada teve até representantes do crime organizado e ladrões do dinheiro público. Nos últimos 30 anos todos os vereadores se dizem cristãos. A única “categoria” não representada nesta Câmara são os ateus.

Waldyr Villela é só mais um religioso que pratica radicalmente sua crença. Não ser médico não o atrapalha: ele tenta curar com o “poder da fé”. A maioria dos brasileiros crê nisso.

Talvez esteja em apuros por falta de marketing. Vejam por exemplo – e só como exemplo – o médium João de Deus, que atua em Abadiânia, Goiás. Ele informa suas funções pela internet. Anuncia cirurgias espirituais que podem utilizar instrumentos “quando a pessoa a ser cirurgiada pede e a Entidade autoriza”. Muita gente importante foi operada por ele. Serginho Groisman afirma que foi curado. A famosa Oprah Winfrey acompanhou suas operações. Gente de todo o mundo o procura. Existe uma estrutura comercial para encaminhar clientes, inclusive com guias a partir de Goiânia e Brasília, como Jorge Urruth, autorizado oficialmente pela Casa Dom Ignácio de Loiola.

As entidades médicas pouco se importam. Como não se importaram com Zé Arigó e, atualmente, tantos pastores na televisão. Mas Waldyr Villela pode ser denunciado por exercício ilegal de medicina. O que é verdade. Mas só ele?

O curandeirismo está na base da “medicina” brasileira. Antigamente os pobres iam aos pagés e às benzedeiras. Hoje, os mais desesperados, vítimas da ignorância ou das crendices, recorrem às mágicas espirituais, sancionadas por um presumível deus.

Waldyr Villela cumpre a regra – e a Câmara representa o Brasil.

Júlio Chiavenato
Jornal A Cidade, Ribeirão Preto, 28/07/17
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: meu caro Chiavenato, como você sabe, aprecio muito os textos das suas crónicas, desenvolvidos com argúcia, clareza, coerência, capacidade e profundidade de conhecimentos, além de refletirem também a excelsa dignidade, ética e profissionalismo. Por isso tomei a liberdade de postar grande desse material no meu blog, para divulgação de informações valiosas de âmbito social e político, sobretudo.

Contudo, não pude deixar de ficar surpreso perante a sua postura desenvolvida no texto acima.

Não conheço o vereador Waldyr Villela, sequer o seu desempenho espiritual. Não venho defendê-lo, mas tão somente alertá-lo sobre a sua generalização e mistura no contexto espiritual.

Não irei enredar-me em torno da digressão pelo espiritismo, porque está por demais informatizado a todos os níveis. Para quem quiser saber de verdade, tem todo o tipo de pesquisa e informação ao seu alcance. O espiritismo não é uma panaceia, uma teoria ou um dogma. É uma autenticidade, uma realidade que várias universidades mundiais de renome já incorporam nos seus currículos de pesquisa e estudo, inclusive aqui no Brasil, onde elevados expoentes intelectuais o pesquisam e estudam. Até temos a AME (Associação médico-espírita brasileira) que incorpora o espiritismo na sua prática de medicina, que, num futuro próximo será uma coisa vulgar.

Então, esta sua afirmação: “O curandeirismo está na base da “medicina” brasileira. Antigamente os pobres iam aos pagés e às benzedeiras. Hoje, os mais desesperados, vítimas da ignorância ou das crendices, recorrem às mágicas espirituais, sancionadas por um presumível deus”, não deixa de ser leviana e incoerente com a realidade, por tudo que acabei de demonstrar.

Por outro lado, esse tão propalado exercício ilegal de medicina não deixa de ser uma grande hipocrisia. Medicina clássica, académica, é uma coisa. Outra coisa, completamente diferente e sem qualquer analogia é a chamada “medicina espiritual” ou “curas espirituais” fora do âmbito da ciência médica e incapaz de praticá-la, porque não existem diplomas para o seu exercício, mas sim desenvolvida por médiuns autorizados pela espiritualidade. Portanto, uma pessoa só poderá ser acusada de exercício ilegal de medicina se ela a exercer na acepção da palavra, ou seja, se essa pessoa desenvolver a medicina clássica, académica, sem o respectivo diploma e autorização do órgão regulador. Dizer que a prática de médiuns no desempenho de curas físicas é exercício ilegal de medicina, não deixa de ser uma autêntica blasfémia. Eles não exercem qualquer tipo de medicina, mas sim, trabalhos de curas de enfermidades – que podem ou não concretizar-se – em conexão com a espiritualidade, sem a qual nada se fará. Como pode um tipo de trabalho como esse ser intitulado “exercício ilegal de medicina”? Imbuído nesse contexto quem estaria exercendo a ilegalidade da medicina seriam os espíritos. Por acaso, existirá algum médico terreno, por mais qualificado que seja, que queira ombrear com os médicos espirituais? Santa ignorância, vaidade, orgulho, arrogância, causadores de todos os distúrbios sociais da atualidade, enquanto essa verdade não estiver generalizada.

Já dizia o grande Sócrates: “a sabedoria reside em não pensares que sabes aquilo que não sabes…”

Para concluir, senhor Chiavenato, o futuro a Deus pertence, nunca se sabe o dia de amanhã e nunca se pode dizer: “desta água não beberei”. Poderá afirmar categoricamente que um dia não poderá recorrer às “mágicas espirituais”? …

Alberto Maçorano