O único escritor brasileiro pobre foi Lima Barreto, nascido em 13 de Maio de 1881, sete anos antes da enganação abolicionista. Machado de Assis tinha a alma loira, o que não diminuiu sua genialidade. Antes, a exalta, se é que entendem “acho que não”.

                Machado tinha bom emprego, sonhou ser ministro, era bem casado com a Carolina do soneto e amigo dos poderosos, inclusive do barão do Rio Branco, a quem bajulava (mas foi esnobado). Lima era o desemprego, a cachaça, o hospício e a morte na sarjeta.

                O que pretendo dizer é que a literatura é quase monopólio dos ricos e seus cúmplices. Fica excelente se os milionários são Tolstoi ou Henry James (porque não temos romancistas que “destilam” a nação [Tolstoi] e decifram os eleitos [James]?).

                Por outro lado, quando os marginais tomam a pena, o mundo é outro. Genet, para quem não tem medo da viadagem e dos ladrões. Celine, para quem não tem mordaças ideológicas e morais.

                Mas, ninguém como Lima beijou a sarjeta e mostrou o vómito da sociedade. Ele era ignorado até que, vale a ironia, os milionários Monteiro Lobato e Caio Prado o resgataram, ao “descobrirem” que Lima é o grande romancista, quem pôs o dedo na ferida e sem salamaleques ou jogos de salão nos desvendou a hipocrisia brasileira. Se quiserem conhecer a imprensa atual leiam “As recordações do escrivão Isaías Caminha”: pouco mudou. Para saber a farsa da nossa intelectualidade nada melhor do que “O homem que sabia Javanês” e “Policarpo Quaresma”.

                Machado é o grande escritor. Lima Barreto o grande romancista. Ele mergulhou nos subterrâneos da miséria brasileira.

Júlio Chiavenato
Ribeirão Preto, 13/05/16
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: não posso pronunciar-me sobre o conteúdo deste artigo, mas, acreditando na magia do esclarecimento do jornalista Chiavenato, sou tentado a postá-lo no nosso blog, pelo contraste mundano de dois dos maiores expoentes da literatura brasileira, podendo, quiçá, ser fonte de consulta para curiosos ou expoentes literários.

 

Alberto Maçorano