No trajeto de casa para o centro, em semáforo de bastante movimento, tenho me deparado com um pedinte muito estranho. Ele abre diante dos carros enorme cartaz com os dizeres: “Nada é por acaso. Você foi escolhido. Colabore com o meu lanche.”.

Às vezes, dá o acaso de o sinal ficar vermelho bem em frente de meu carro. Outras, vejo que o sinal está verde e, sigo em frente, pensando no verso dos Titãs: “o acaso vai me proteger…”, título, aliás, escolhido pelo Reinaldo Di Lucia, num Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, para sustentar que acasos acontecem sim e podem ser responsáveis por importantes episódios da vida gente. É uma ideia que se contrapõe àquela da causalidade absoluta, muito sustentada no meio espírita, e segundo a qual tudo na vida está previamente escrito. Dela justamente é que se vale o rapaz do semáforo, cara simpático e inteligente, que a todos sorri indistintamente, inclusive para mim. Mesmo assim, nunca sucumbi à doutrinação dele querendo me fazer crer predestinado a lhe dar um troquinho, sabe-se lá para quê.

                Dar ou não esmola

                Mas não é sobre a intrincada questão fatalismo x acaso ou determinismo x livre arbítrio que quero falar. É das dúvidas que sempre nos atormentam sobre dar ou não esmola a essa verdadeira multidão de pedintes que toma conta de nossas ruas. Penso que o melhor mesmo é destinar eventuais ajudas ao nosso alcance àquelas entidades sérias, também numerosas em todo o país, voltadas à promoção social.

                Não são poucos os apelos de entidades reconhecidamente benemerentes que, muitas vezes, mais não pedem do que um agasalho para seus idosos, um litro de leite para suas crianças, uma cesta básica para seus internos incapacitados de trabalhar e abandonados pelos familiares. Muito do que para nós sobra é indispensável à sobrevivência deles. Entre nós, o Estado já avançou um pouco na adoção de políticas sociais integrativas. Mas, muito ainda resta a ser feito. E essa, aliás, é uma tarefa da sociedade como um todo e de cada um individualmente.

                Contrastes

                Vivemos num país ainda socialmente injusto, mas também rico em almas generosas que se preocupam com seu semelhante e que dedicam grande parte de seu tempo e de seus recursos materiais e espirituais ao socorro dos mais necessitados. É um contraponto às estruturas sociais viciadas por privilégios e injustiças engendradas ao curso da história. O egoísmo, o individualismo, tão próprios de nosso tempo, são obstáculos que precisamos vencer, alargando o sentimento de solidariedade, escondido no fundo da alma da gente.

                Aí cabe sim a inserção da lei de causa e efeito. O Livro dos Espíritos afirma, na questão 930, que, numa sociedade regida pelas leis de Jesus, não haveria lugar para a fome. A lei de Jesus, no caso, é a da prática da justiça social, da garantia de oportunidades iguais para todos e o suprimento pela sociedade das necessidades daqueles que estão impossibilitados de produzir.

                Causas e efeitos

                A violação sistemática às leis de igualdade, de justiça e de solidariedade, quando se torna prática contumaz, contamina e deteriora a cultura de um povo. Gera a violência, a revolta e o desequilíbrio, cujos efeitos terminam por atingir todo o tecido social. Tempos de crise, como o que estamos vivendo, no Brasil, não podem ser interpretados como meros episódios políticos. Nem tampouco é justo atribuir a culpa de tudo à classe política.  O quadro é a resultante mais dramática do atraso moral em que nos encontramos.

                É preciso remover esse gigantesco entulho feito de  desamor e indiferença para que todos sejamos mais felizes. Sem isso, acaso algum nos vai proteger. A crise, frequentemente, não é mais que efeito de causas que, num esforço conjunto, podemos estancar.

 (Coluna publicada nos jornais CCEPA OPINIÃO, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, e ABERTURA, do Instituto Cultural Kardecista de Santos, edições de junho/2016)

Postado por Milton Rubens Medran Moreira, em 15/06/16, na rede Espirit Book