Entre 1960 e 1980, a esquerda esperava que os pobres se revoltassem e fizessem a revolução. Mas quem se “rebelou” foi a classe média, que se contentou com o fim da ditadura e as eleições diretas, abrindo mão das reformas que levariam às massas a educação, a saúde e a moradia.

                O que sobrou da esquerda insistiu. Esperava que pelo voto surgisse um governo popular que promoveria as mudanças sonhadas. Porém, a globalização se impôs e o consumismo se consolidou com a economia de mercado. Mas o PT venceu três eleições e ofereceu o placebo social que iludiu os sonhadores: direito ao consumo supérfluo e a queimar gasolina nos carros pagos em 60 prestações.

                Veio o revertério: mensalão, petróleo e o acordão das classes dominantes, que culminaram no impeachment de Dilma e fizeram de Lula réu, nas garras do fundamentalista Sérgio Moro. O que deu errado? Por que o povo não quis a revolução salvadora? Nada deu errado. Apenas um erro de avaliação: o povo preferiu a conciliação, reciclando as formas de dominação e adequando-se aos novos tempos.

                No fundo, houve uma “revolução”: os evangélicos ascenderam das trevas da alienação e propuseram uma religião de resultados. Fizeram milagres na televisão, salvaram os bêbados da cachaça, as mulheres do machismo agressivo para se submeterem ao macho alienado; as igrejas substituíram os sindicatos e os pastores se tornaram líderes políticos. Houve uma revolução nos costumes que influenciou a vida política.

                Hoje, há uma distância enorme, abissal, separando a esquerda do povo que sofre com um sorriso nos lábios, crente que Jesus salva.

Júlio Chiavenato 
Ribeirão Preto, 25/09/16 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: meu caro Chiavenato, como sempre, a sua maestria em lidar com as palavras. Eu titularia a sua crónica assim: “os desvios da revolução”. Sim, após a queda da ditadura militar, começariam outras ditaduras… A ditadura das “diretas já”, pois, não houve um consenso democrático para que se criasse uma carta constitucional que abrangesse amplamente o respeito e a responsabilidade democrática, de verdade. Interesses vários e mesquinhos coibiram que isso se concretizasse. Assim, vigoram num regime intitulado democrático, a lei do “colarinho branco”, ou seja, o “fórum privilegiado” traduz fielmente essa condição; as CPIs da vida, totalmente parciais e interesseiras, indignas de uma sociedade pluralista e democrática e, para culminar essa aberração, veja-se agora, corruptos cidadãos comprovados, continuam desenvolvendo os seus mandatos, como se nada disso seja anormal. Tanto em Ribeirão Preto como em Brasília, ou em qualquer ponto do Brasil.

                Apesar do envolvimento político da Lava Jato, alguma coisa de útil está acontecendo na sociedade brasileira, expondo-se as mazelas nas entranhas da policagem; mesmo assim, corrupções variadíssimas ocorrem por esse Brasil afora, sem quaisquer pudores ou medos, com o que estamos vendo debaixo do nosso nariz em Ribeirão Preto. Alguma coisa está errada, talvez as sanções não estejam sendo praticadas com o devido rigor e isenção.

                Aqui fica o alerta para quem conseguir decifrar o enigma…

 Alberto Maçorano