Quarta-feira pela manhã um garoto foi executado com mais de quarenta tiros. Por coincidência, o adolescente assassinado é suspeito de ter matado um policial militar. Em mais uma coincidência, os parentes e vizinhos do menino morto dizem que alguns policiais militares ameaçavam constantemente matá-lo. À tarde, coincidentemente, os carros estacionados no pátio da Transerp foram incendiados.

                Quanta coincidência: adolescente mata policial, policiais vingam a morte do colega, gangue reage jogando bombas molotov na Transerp.

                O que não é coincidência nestes fatos?

                Talvez, perceber que tudo aconteceu na Zona Norte, pobre e empobrecida, abandonada pelos poderes públicos e com uma população exposta à violência policial e refém dos bandidos. Também não é coincidência que onde a miséria convive com a criminalidade os meninos recém-nascidos das fraldas entram no mundo conhecendo as artimanhas para sobreviver entre a repressão policial e a cooptação do tráfico. Menos coincidência ainda é descobrir que não há nenhuma política de inclusão social, realmente impossível em uma sociedade que aceita a desigualdade extrema e concentra a renda para menos de um terço da população ter direito a três refeições, escola e atendimento sanitário.

                Nenhuma coincidência, também, ao se verificar que a “opinião pública”, que se expressa pela voz da classe média (justamente o terço que vai à escola, tem empregos e garantias legais), não lamente a execução dessas crianças, vistas não como vítimas, mas como uma ameaça à sua “segurança”.

                Tudo se repete com tanta frequência que elimina as coincidências.

Júlio Chiavenato 
Ribeirão Preto, 29/07/16 
chiavenato@jornalacidade.com.br

Nosso comentário: como de costume, as suas colunas, senhor Chiavenato, são sempre oportunas e contundentes. Põe o dedo na ferida, mas, infelizmente, não se tomam providências algumas por quem de direito. É como se estivéssemos pregando no “deserto”. Da mesma maneira que venho comentando há longo tempo, e não me cansarei de fazê-lo, porque só os “daltónicos” não conseguem enxergar as cores da realidade. VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA, esta é a realidade que, pelos motivos mais variados, as administrações públicas e políticas, não conseguem vislumbrar.

                Enquanto permanecermos neste patamar de consciência, não sairemos deste ciclo vicioso, ou das tais “coincidências” conclamadas pelo senhor Chiavenato, pelos próximos milhares de anos. É triste e lamentável sermos governados por pessoas tão medíocres e limitadas.

                Eu não critico, por criticar, e não dou alternativa. Jamais faria isso. A única solução passa por entender, de fato, o mecanismo existencial, o fundamento existencialista do ser humano: de onde viemos, porque viemos e para onde iremos após a “morte”, que só o Espiritismo ensina. Enquanto esse mecanismo não for impregnado na mente, na consciência e no coração do homem, não chegaremos a parte alguma. Criar fortalezas ou guetos comunitários e policiamentos ostensivos, só leva à confirmação da lei divina e natural da ação e reação, que é o que está acontecendo há milhares de anos.

                Está mais do que na hora de acabar com essa política de “terra queimada” e implantarmos a lei do amor ensinada por Cristo, considerando qualquer ser humano, independente daquilo que for e do lugar onde se encontre, como um irmão em Cristo e, como tal, respeitado e dignificado. Se estiver transviado, deve ser recuperado e não marginalizado. Simples assim. Apenas isso. Foi para isso que Jesus veio à Terra para nos ensinar e até deixar-se “morrer” para consubstanciar a sua doutrina. Todavia, talvez sejam necessários mais dois mil anos para que essa doutrina penetre a mente, a consciência e o coração do homem.

 Alberto Maçorano