Ao apresentar o Espiritismo à humanidade, Allan Kardec definiu-o como sendo, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica: como ciência trata da natureza, origem e destino dos espíritos, e das suas relações com o mundo corporal; como filosofia ele compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações. 

Em O Livro dos Espíritos, fez inserir nos Prolegómenos o esclarecimento de que a obra foi escrita por ordem e mediante ditado dos espíritos superiores e que lhe coube a ordem e distribuição metódica das matérias, assim como as notas e a forma de algumas artes da redação. Em o Evangelho segundo o Espiritismo, logo no capítulo primeiro apresenta as três revelações divinas como sendo representadas por Moisés, Jesus e o Espiritismo, nessa ordem. Deixou claro que, se as duas primeiras eram personificadas, a terceira e última era obra coletiva dos ministros de Deus e agentes de Sua vontade.

Ao conjunto dos ensinamentos espirituais Allan Kardec denominou Espiritismo ou Doutrina Espírita, vocábulos por ele criados. Muitas vezes, Kardec se utilizou do termo Espiritismo para se referir aos fenómenos espíritas em geral, que sempre existiram, mas a doutrina em si mesma somente se constituiu com a publicação de O Livro dos Espíritos, em 18 de Abril de 1857.

Por que os fenómenos mediúnicos estão na origem da doutrina e lhe constituem uma prática natural e permanente, muitos leigos confundiram o Espiritismo, e ainda o confundem com todas as outras formas de exercer a mediunidade.

Daí o surgimento de algumas expressões incorretas, que todos nós, espíritas, devemos cuidar de corrigir, esclarecendo a bem da verdade.

Não devemos estimular o uso do termo Kardecismo (ou a derivação kardecista), porque como mencionamos no início, o codificador deixou claro que a nova doutrina não surgiu de seu pensamento e sim de um conjunto de ensinamentos divinos trazidos pelos espíritos superiores. Espírito superior e sábio, sincero, humilde e com bom senso, não se intitulou profeta dos tempos atuais e não assumiu para si a condição de chefe da doutrina, apesar de lhe ter dado toda a estrutura pedagógica e interpretação pessoal dos ensinamentos espirituais.

Se muito usual foi o termo Espiritismo – Cristão – quando se queria referir à vivência da mediunidade sob a orientação da caridade, como recomendado por Jesus, ao afirmar que devemos dar de graça o que de graça recebemos, hoje podemos e devemos dispensar a qualificação, pois a moral da doutrina espírita é a mesma moral do Cristo, que é o nosso modelo e guia. Do contrário, pode-se supor que há um Espiritismo que não é cristão, e isso não existe. Diferente quanto à classificação de espírita – cristão- utilizado pelo codificador para designar os verdadeiros espíritas, aqueles que aceitam o espiritismo e o praticam.

Uma questão que gerou debates e discórdia no movimento espírita foi a pretensão de se fatiar o Espiritismo conforme seus variados aspectos, surgindo então os defensores de um espiritismo científico, do espiritismo filosófico e do espiritismo religioso, cada qual priorizando, enganosamente, um único aspecto, quando a definição oferecida por Allan Kardec indica que todos os três lhe são inerentes e essenciais. Hoje, quase que de forma pacífica, aceita-se que o espiritismo tem um tríplice caráter: é ciência, filosofia e também religião (no sentido de comunhão com Deus e não de uma religião institucionalizada).

E não existe Espiritismo de mesa branca, expressão que surgiu do fato de as mesas usadas para a prática da mediunidade, em alguns centros serem cobertas por uma toalha branca, para diferenciá-lo dos trabalhos de umbanda, quimbanda ou candomblé, respeitáveis quando dedicados ao bem. Estes são seitas ou religiões que vivenciam a mediunidade de modo particular, podendo ou não utilizar-se de adereços especiais, músicas, danças, etc., ao passo que no Espiritismo isso tudo é dispensável. A mediunidade sob orientação da doutrina espírita pode ser exercida com naturalidade, pois é um fenómeno de natureza espiritual e prescinde de aparatos exteriores.

E a falta de conhecimento da realidade espiritual levou à crença de um espiritismo forte e um espiritismo fraco, mais uma vez fruto de confusão com a mediunidade e com a ação dos espíritos. Imaginam alguns leigos, que problemas e aflições graves decorrentes de influências obsessivas só podem ser tratados por espíritos energéticos ou até violentos, que são capazes de expulsar os perseguidores espirituais. Embora não se negue essa possibilidade, são intervenções pontuais que não resolvem a obsessão definitivamente e não estão conforme a proposta divina de reconciliação que só é possível quando há amor. A solução não está no simples afastamento do espírito, mas na eliminação das causas que estão na criatura, mediante a mudança de vida para o bem e aquisição de novos hábitos. Além do mais, é falso que os espíritos superiores, porque são bons e afáveis não conseguem afastar os inferiores, porque a ascendência moral é irresistível (questão 274 de O Livro dos Espíritos).

Essa nossas considerações são relevantes para que as pessoas não sejam levadas a enganos ao procurarem as instituições ou centros espíritas, inclusive, porque muitos desses grupos fazem um inadequado sincretismo, assim podendo fazer suas escolhas com conhecimento e segundo seus próprios interesses.

A nós espíritas compete a tarefa da informação, do esclarecimento, ainda que isso nos exija o investimento de algum tempo. Se alguém nos perguntar se somos espíritas “kardecistas” podemos dizer: sou espírita… e expliquemos.

Donizete Pinheiro escreveu no
Jornal Verdade e Luz
Ribeirão Preto, Novembro de 2017