Tudo começa com uma indigestão após comer alimentos gordurosos, que evolui para uma dor insuportável. Atenção: quando esse órgão começa a incomodar, o melhor tratamento é a cirurgia. Conheça mais sobre as causas das pedras na vesícula.

O que a diva do cinema Marilyn Monroe e o Dalai Lama, líder máximo do Tibete, teriam em comum? Ambos foram privados da vesícula biliar, mas com uma diferença fundamental. A símbolo sexual, que morreu aos 36 anos no auge de sua vida artística, carregava uma enorme cicatriz no abdome, fruto da técnica cirúrgica que vigorou até o início da década de 1990. Já o líder dos tibetanos, hoje exilado na Índia, foi operado em outubro de 2008 pela técnica videolaparoscópica e traz apenas quatro minúsculos pontos no abdome. O procedimento permite ao paciente operado retornar para casa com pouquíssima dor e logo voltar às atividades habituais.

Essa tremenda evolução significou mais conforto para os pacientes e menores riscos para o único tratamento efetivo quando é necessário retirar a vesícula. Isso ocorre quando pequenos cristais se formam no interior dessa víscera localizada junto ao fígado, no aparelho digestivo. Acomete de 8% a 10% da população adulta e o risco tende a aumentar com a idade. Entre a sexta e sétima década de vida, dobra o risco de uma pessoa desenvolver o problema.

O ORGÃO

“Em forma de pera, é ela que armazena a bile, líquido secretado pelo fígado com a finalidade de auxiliar digestões mais trabalhosas”, explica o cirurgião Marcelo Averbach, do Hospital Sírio-Libanês. Quando o alimento alcança o duodeno, depois do estômago, ocorre a produção de hormônios que estimulam a contração da vesícula, responsável por lançar a bile para ajudar na fragmentação das gorduras. “Na verdade, a bile atua como um detergente, facilitando a digestão e a absorção das substâncias gordurosas”, diz Averbach.

Segundo ele, pessoas que se queixam da sensação de empachamento e má digestão quando comem alimentos gordurosos podem conviver comum a vesícula doente, com cálculos ou com dificuldade de eliminar a bile. O mecanismo fisiológico funciona da seguinte maneira: Quando ingerimos uma refeição gordurosa, o duodeno dá o alerta sobre a presença de gordura. Em resposta a esse aviso, a vesícula se contrai, promovendo uma injeção extra de bile em sincronia à ingestão gordurosa, o que auxilia diretamente a digestão das gorduras ingeridas.

OS CÁLCULOS

As pedras ou cálculos que se depositam na vesícula são compostos principalmente por excesso de colesterol. Alimentação rica em gordura (carnes, ovos e produtos derivados de leite) contribui para o desequilíbrio desse órgão, que fica sobrecarregado pelo colesterol. Este, não sendo solúvel em água, se precipita no fundo da vesícula e aos poucos vai se formando um grupo de pedras que podem atingir entre 1 e 2 cm. É frequente, ainda, o cirurgião identificar no ultrassom uma coleção

de minúsculas pedrinhas.

Enquanto o cálculo renal sai sozinho ou é retirado, quem tem cálculo biliar precisa retirar a vesícula toda. “Mais da metade dos casos de cálculo é assintomático. As pessoas podem passar a vida toda sem sentir nada”, explica o chefe do Grupo de Fígado, Vias Biliares e Pâncreas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Edson José Lobo. Como é uma loteria saber quando os sintomas vão aparecer em crises agudas de dor, e considerando a simplicidade do procedimento, a cirurgia para retirada da vesícula pode ser indicada mesmo para os pacientes assintomáticos. De acordo com os médicos, os planos privados de saúde e o Sistema Único de Saúde (SUS) bancam os custos da videolaparoscopia para a remoção biliar.

Extrair o pequeno órgão não prejudica a vida da pessoa, u

ma vez que é o fígado que produz a bile, cuja função é quebrar moléculas de gordura durante o processo de digestão no intestino. A vesícula serve para armazenar uma pequena parte da bile produzida, segundo Lobo, para uma “situação extra, como uma feijoada”.

“Se a vesícula tem cálculo, já nem concentra mais a bile; ela já está doente”, afirma o médico. É frequente, diz ele, o paciente passar a alimentar-se melhor, com a acomodação do fígado à nova condição. A bile produzida passa a chegar diretamente ao duodeno, sem escalas.

A CRISE

É uma dor súbita, muito forte e localizada no lado direito do abdome. A crise aguda se assemelha, para muitos pacientes, a um golpe de objeto cortante, tal a intensidade da dor que impõe um atendimento de emergência. “Em geral a agudização é o desdobramento de uma situação crônica de formação de cálculo que até aquele momento permanecia assintomática”, esclarece Averbach.

No pronto-socorro, o paciente recebe medicação antiespasmódica, que provoca o relaxamento da vesícula e o fim temporário da obstrução, mas mantém aberta a porta para novas oclusões, dores e espasmos. Nessa condição, o diagnóstico definitivo é determinado pelo ultrassom abdominal que verifica se existem cálculos, sua localização e se há um processo inflamatório. O exame mostra também se as vias biliares estão livres ou comprometidas por pequenas pedras. Quando confirmado o diagnóstico, é indicada a remoção da vesícula como o tratamento mais seguro, pois os cálculos não desaparecem com o tempo e inexiste outra opção que não seja cirúrgica.

“É recomendável que o exame seja realizado anualmente por pessoas com mais de 40 anos e por mulheres em idade fértil que já tiveram filhos”, sugere Lobo. 

COMPLICAÇÕES À VISTA

As complicações se devem à migração dos cálculos, como detalha o cirurgião Marcelo Averbach. A primeira delas é a colecistite aguda provocada pelo cálculo encravado na saída da vesícula. A segunda é a icterícia obstrutiva causada pela movimentação de pedras menores que saem da vesícula e chegam ao colédoco (canal do fígado por onde passa a bile). Nesse caso, a passagem da bile secretada pelo fígado é bloqueada, não consegue escoar e a pele do paciente adquire um tom amarelado.

A terceira e mais grave situação é a pancreatite aguda de origem biliar. Como existe certa relação entre as porções finais da via biliar e do canal do pâncreas, a pedra parando ou simplesmente passando por ali pode interferir no escoamento do suco pancreático e gerar um processo inflamatório de maior gravidade. “Por isso, o tratamento de pacientes assintomáticos deve levar em consideraçãoos riscos advindos das complicações e os riscos cirúrgicos. A última palavra, porém, é sempre dada pelo paciente”, diz o médico.

PERFIL DE RISCO

Se uma paciente perguntar a um médico do aparelho digestório como prevenir a formação de pedras na vesícula, ele pode chegar ao extremo de sugerir que ela não engravide. Ocorre que o perfil de maior risco para o problema é formado justamente por mulheres em idade fértil, obesas e por volta dos 40 anos. Em inglês, como cita o cirurgião Marcelo Averbach, definem-se os fatores de risco como os quatro F: Female, Fertile, Fourty, Fat (mulher, fértil, quarentona, gorda).

Uma das hipóteses é que o mecanismo de ação do hormônio feminino estrógeno atua não só na descarga de substâncias como o colesterol, como também provoca certo relaxamento da vesícula biliar, o que leva à maior deposição de sais e do colesterol. “Lesões na parede do estômago, como as úlceras duodenais, também favorecem a formação de cálculos porque provocam certo imobilismo da vesícula”, informa o cirurgião do Hospital Sírio-Libanês. Pessoas submetidas a cirurgias gástricas para tratamento de câncer e de úlceras têm risco aumentado de formar cálculos biliares.

Revista VivaSaúde – Edição 70

Postado por Clara Ribeiro, em 26/11/15, na Rede Espirit Book

 

 

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