Libriano, Eduardo Cunha completará 58 anos de idade daqui a duas semanas. Em seu aniversário do último ano, numa noite abafada em um restaurante da Asa Sul de Brasília, ele enxugava o suor e sorria diante de um bolo coberto de chantilly, sob aplausos de 50 políticos, entre deputados, senadores e ministros, em festa embalada por uísque e canções de Lulu Santos e Reginaldo Rossi.

Do seu lado direito estava a esposa, Claudia Cruz. Do lado esquerdo, o organizador da festa – um deputado estreante, também peemedebista, gaúcho, mas eleito pelo Mato Grosso do Sul: Carlos Marun.

Ate então, Cunha ainda era classificado por muitos como “o homem mais poderoso do Brasil”, “o malvado favorito” dos rivais de Dilma Rousseff, “dono de uma bancada informal de 170 deputados”.

Um ano depois, na última segunda-feira, só um deles pediu a palavra – não uma, mas sete vezes – para defender o agora ex-deputado na sessão que resultou na cassação de seu mandato e na suspensão de seus direitos políticos por um placar arrebatador: 450 votos a favor, 10 contra e 9 abstenções.

Quem pediu a palavra era o deputado Marun outra vez.

Debandada ‘cruel’

Atual vice-líder do governo de Michel Temer na Câmara, Marun pediu a reconstrução do parecer que defendia a cassação de Cunha; depois, o adiamento da sessão; depois, o relaxamento da pena, e chegou a recorrer ao argumento de Dilma Rousseff no julgamento do impeachment: “Os senhores não podem afastar Cunha pelo ‘conjunto da obra'”. Tudo em vão.

Ele argumentava que a debandada dos colegas era “cruel” e que não seguia as regras do regimento da Casa.

“Dizem que a mulher dele (Cunha) gastou com coisas caras. Ora, vamos então botar no regimento que esposas de deputados não podem comprar coisas caras”, afirmou, em referência aos gastos de mais de R$ 1 milhão de Claudia Cruz no exterior, entre 2008 e 2014, identificados pela operação Lava Jato.

Ao criticar aqueles que no passado bajulavam o então presidente da Câmara dos Deputados e hoje pedem seu afastamento, Marun citou Seu Boneco, personagem da Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anysio. “”Eu poderia fazer como um personagem da TV diz e ir pra galera.”

 © Fornecido por BBC World Service Trading Limited Placar da votação da cassação de Eduardo Cunha

De fato, não foi, e arregalou as sobrancelhas quando percebeu que o Delegado Edson Moreira (PR-MG), única voz prevista para a defesa – além da sua e a do próprio Eduardo Cunha -, recuou durante seu discurso e optou por se abster da votação. “A história vai julgar os senhores”, bradou Marun.

Os outros nove deputados que votaram pela absolvição de Cunha permaneceram calados durante toda a sessão: Arthur Lira (PP-AL), Carlos Andrade (PHS-RR), Dâmina Pereira (PSL-MG), João Carlos Bacelar (PR-BA), Jozi Araújo (PTN-AP), Júlia Marinho (PSC-PA), Marco Feliciano (PSC-SP), Paulinho da Força (SD-SP) e Wellington Roberto (PR-PB).

‘Sociedade não está contra Cunha’

Horas antes da reunião que afastou Eduardo Cunha da politica pelos próximos 8 anos, Carlos Marun conversou por telefone com a BBC Brasil.

De patrimônio modesto declarado à Receita Federal (R$ 94.268), Marun recebeu R$ 1.624.541 em doações para a campanha de seu primeiro mandato em Brasília, vindo de setores como indústrias de sementes, celulose e abatedouro de aves.

Membro da bancada ruralista, árduo defensor da liberação dos rodeios, ex-aluno de Colégio Militar, formado em Direito e Engenharia, Marun disse à reportagem que conta “nos dedos de uma mão só as vezes em que fui interpelado por pessoas que queriam a cassação de Eduardo Cunha”.

“Mas centenas me interpelaram para me parabenizar por manter meu apoio ao Eduardo”, prosseguiu o peemedebista, antecipando a frase que repetiria durante toda a noite em suas falas aos colegas de plenário: “Esta cassação significará a morte política do Eduardo”.

 © Fornecido por BBC World Service Trading Limited Carlos Marun, em foto de arquivo

Desconsiderando uma petição popular criada em outubro de 2015 no site Avaaz, por exemplo, que reunia até o fechamento desta reportagem mais de 1,3 milhão de assinaturas defendendo o fim do mandato de Cunha, Marun disse à reportagem que “não existe nenhum movimento da sociedade contra Cunha, só na imprensa”.

Também criticou os colegas que “viraram casaca” e abandonaram Cunha. “No campo pessoal, passei a conhecer um pouco mais o ser humano a partir desse processo”, lamentou. “Pessoas que frequentavam o gabinete, que sabem da importância que o Eduardo teve no impeachment da Dilma, hoje se colocam como se nada disso tivesse acontecido.”

Além de assessores, Marun foi o único deputado visto recebendo instruções de Eduardo Cunha no plenário da Câmara.

A fidelidade repercutiu no Parlamento e nas redes sociais. “Quero um marido fiel como o Marun”, tuitou a apresentadora Astrid Fontenelle. “Só sobrou o Marun?”, perguntou a comentarista política Cristiana Lôbo. “Só se ouve Carlos Marun”, exclamou a jornalista Eliane Cantanhêde.

Dois dos principais oposicionistas de Cunha comentaram a abnegação do deputado. Silvio Costa (PTdoB-PE) elogiou sua insistência em defender o padrinho político. “Você está do lado errado, mas não é canalha”, afirmou. Chico Alencar (PSOL-RJ), um dos responsáveis pelo inicio das investigações contra Cunha, destacou seu isolamento. “Marun é uma presença retumbante, gongórica, embora frustrada.”

Questionado pela reportagem sobre as razões da proximidade com Cunha, Marun desconversou. “Não vou para onde o vento vira e me considero uma pessoa de êxito na política”, argumentou. “Sou uma pessoa que tem coerência.”

Delações premiadas

Réu por improbidade administrativa, ex-secretário de Habitação de Campo Grande e do Estado do Mato Grosso do Sul, Marun criticou os acordos de delação premiada da Lava Jato quando questionado pela BBC Brasil sobre um possível acordo entre Eduardo Cunha e a Procuradoria Geral da República (PGR).

Cunha nega veementemente qualquer intenção de delação – opção tida por muitos como a única maneira de abrandar as penas impostas ao peemedebista em caso de condenação.

“Vou escrever um livro do impeachment, vou contar obviamente tudo o que aconteceu no impeachment, o diálogo com todos os personagens que participaram de conversas comigo com relação ao impeachment. Esses serão tornados públicos na sua integralidade”, disse Cunha a jornalistas, logo depois da cassação.

 © Fornecido por BBC World Service Trading Limited Cunha na sessão que resultou em sua cassação

Na última sexta-feira, entretanto, o jornal Valor Econômico divulgou que Cunha teria enviado emissários, em junho, para sondar a Procuradoria sobre a possibilidade de delações. O ex-deputado negou novamente.

“Conversamos muito. Nunca ouvi nada sobre isso vindo dele”, disse Marum à BBC Brasil. “Nem nos momentos mais difíceis.”

“Tenho muita restrição à delação quando ela não parte de um sincero arrependimento do delator”, prosseguiu.

O deputado cita nomes de lobistas e executivos que já fizeram acordos de delação com os responsáveis pela Lava Jato. “Quando vejo um Sergio Machado, um Julio Camargo, um (Pedro) Barusco, todos livres, leves e soltos, eu vejo que a delação premiada se transformou em anistia, e com patrimônio preservado. O delator hoje não tem a pena reduzida, ele é anistiado.”

‘Bom companheiro’

Apesar da defesa insistente – Marun interrompeu todas as sessões que julgaram Eduardo Cunha no Conselho de Ética e Decoro da Câmara -, o deputado se esquiva sobre a integridade do aliado.

“Não sei se Eduardo Cunha é culpado ou inocente. Não o conheço a tempo suficiente para botar a mão no fogo por ele, e por isso não a ponho”, escreveu Marun em artigo publicado na Folha de S. Paulo, no dia da votação.

Em março deste ano, o STF acolheu a primeira denúncia contra Cunha na Lava Jato, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, acusado de receber propina de US$ 5 milhões para apoiar o fechamento de um contrato de fornecimento de navios-sonda à Petrobras.

Em junho, virou réu em outra ação da Lava Jato, sob acusação de receber e movimentar dinheiro em contas secretas na Suíça. Segundo essa denúncia (de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e declaração falsa em documento eleitoral), Cunha teria recebido propina de R$ 5,2 milhões na compra, pela Petrobras, de um campo de petróleo na África.

O peemedebista já era alvo de uma ação por corrupção na Petrobras na primeira instância da Justiça Federal, em que procuradores pedem pagamento de indenização de US$ 10 milhões. Como não se trata de uma ação penal, ela corria em primeira instância mesmo enquanto Cunha tinha foro privilegiado.

Ao fim da sessão desta segunda-feira, no Salão Verde da Câmara, assessores parlamentares que comemoravam a cassação de Cunha homenagearam seu fiel escudeiro.

“Marun é um bom companheiro… Marun é um bom companheiro… Marun é um bom companheiro… Ninguém pode negar!”

Nosso comentário: é estarrecedor e difícil de acreditar na integridade mental desse senhor Marun. Invocar “fidelidade” para um fora da lei, um ladrão confirmado, um violento corrupto e corruptor, um salafrário que deu sequência a um impeachment de uma mulher íntegra só porque não aceitou ser chantageada para defender a pele dele. É muito triste e lamentável que em pleno sec XXI, em pleno amadurecimento da democracia brasileira, um “velho coronel” que sequer devia fazer parte dos quadros políticos, consiga devanear e fazer-se passar por “anginho”… É uma afronta à miséria do povo brasileiro. A postura de Marun, desrespeita os mais nobres princípios éticos e morais, uma autêntica bofetada na cara daqueles que sobrevivem neste “desgraçado país”, pretendendo levantar a bandeira da bandalheira, da desfaçatez, da imoralidade e da corrupção. É um absurdo um lídimo representante do povo abrir a boca para falar tanta abobrinha…

Alberto Maçorano