As descrições do espírito André Luiz podem ser consideradas como fruto de sua imaginação? Uma das “portas de entrada” de muitas pessoas ao conhecimento espírita é o livro “Nosso Lar” (1), de autoria de André Luiz pela psicografia de Francisco Cândido Xavier. Quando de seu lançamento, o movimento espírita brasileiro se dividiu em duas atitudes opostas. Uma parte claramente duvidava da descrição de casas, árvores, aves e cidades no plano espiritual e outra anunciava o livro como uma nova revelação espírita, complementar à Codificação feita por Kardec.

Essa segunda posição foi refutada por J. Herculano Pires (2) que apontou que essa existência de reproduções do mundo material no Plano Espiritual já havia sido prevista nos livros da Codificação e até descrita em alguns artigos da Revista Espírita.

Só para citar um argumento de Kardec sobre o assunto, reproduzimos trechos do capítulo “Do Laboratório do Mundo Invisível” de “O Livro dos Médiuns” (3). O Espírito São Luiz responde a Kardec com as seguintes informações.

“Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, eles concentrar à sua vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais.”

Kardec analisa as respostas de São Luiz e conclui que “o Espírito atua sobre a matéria; da matéria cósmica universal tira os elementos de que necessite para formar, a seu bel-prazer, objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Pode igualmente, pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. Os objetos que o Espírito forma, têm existência temporária, subordinada à sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente.”

Infelizmente essa refutação de Herculano tem sido mal interpretada por aqueles que, ainda nos dias de hoje, compartilham da primeira posição, ou seja, de incredulidade quanto às descrições de André Luiz. Muitas vezes Herculano Pires é citado como alguém que não acreditava nas descrições de André Luiz, considerando como fantasias, o que não corresponde à verdade.

Kardec estabeleceu regras para a aceitação de informações vindas dos Espíritos, o que ficou conhecido como Concordância Universal do Ensino dos Espíritos: a mesma informação precisaria vir de Espíritos diferentes, através de médiuns diferentes, para ser considerada fidedigna.

Temos visto, com freqüência até crescente nos últimos tempos, questionamentos em relação às descrições de André Luiz, até por parte de estudiosos da Doutrina, que relativisam essas descrições, como sendo fruto da imaginação do Espírito e, alguns, até as atribuem ao médium.

Seria necessário lembrar que o livro “Memórias de um Suicida” (4), do Espírito Camilo Cândido Botelho, pela psicografia de Yvonne do Amaral Pereira, igualmente descreve um hospital completo, com detalhes arquitetônicos e aparelhagem sofisticada, mas isso parece não convencer esses críticos. Embora esse livro tenha sido psicografado muitos anos antes do seu lançamento, como esse lançamento foi posterior a “Nosso Lar”, os críticos alegam que poderia ter havido algum grau de influência sobre o Espírito autor ou sobre a médium.

Porém esses críticos parecem ignorar trechos bastante reveladores de obras estrangeiras que, muito antes dos livros nacionais, já descreviam (talvez com menos detalhes) as mesmas coisas que André Luiz descreve.

Raymond

Em “Raymond” (5), obra importantíssima – infelizmente caída no esquecimento – de Sir Oliver Lodge, o filho do autor comunica-se por diferentes médiuns descrevendo um Plano Espiritual tão semelhante à Terra que o próprio autor, levado pelo excesso de escrúpulos científicos, se recusa a aceitar a descrição como confiável, limitando-se a incluí-la no livro com ressalvas.

Raymond informou: “Eu vivo numa morada construída de tijolos – e há árvores e flores, e o chão é sólido. Se a gente ajoelhar-se na lama, aparentemente suja a roupa.” Devido ao seu interesse por engenharia, o espírito do rapaz comenta que o que mais o preocupava era “como a coisa é feita, como é composta. Não descobri ainda, mas tenho uma teoria. Não é original minha – foi formada com palavras colhidas aqui e ali.”

Em seguida, Raymond, que nunca fora interessado pelos princípios espíritas, descreve – com suas palavras – o fluido cósmico universal: “Há qualquer coisa que está sempre subindo do plano da terra – qualquer coisa de forma química. A medida que se ergue até nós, sofre várias mudanças e solidifica-se em nosso plano.”

Sir Oliver, com seu sentido extremamente científico, não aceita sem questionar as informações do filho e escreve: “Algumas dessas coisas são bastante divertidas, mas as referências ao viver do outro lado não constituem matéria verificável.” Mas complementa que “ultimamente têm aparecido obras que dão informações sobre o outro lado, de um modo positivo e categórico; muito possível também que os médiuns se deixem influenciar por obras.”, mostrando um ceticismo científico até exagerado.

Raymond informa que “não tem necessidade de comer. Mas vê pessoas que a tem; diz que a essas é dado alguma coisa com as aparências dos alimentos terrestres. Um camarada chegou outro dia e quis um charuto. Julgou que eles jamais poderiam fornecer-lhe isso. Mas há cá laboratórios que manufaturam toda a sorte de coisas. Não como fazem na Terra, mas com essências, éteres, gases. Não é o mesmo que no plano terrestre, mas fizeram algo que parecia charuto.” Essa necessidade do fumo e outros vícios terrenos e o seu atendimento são tema de um trecho de “Nosso Lar” onde se conta que, há muitos anos, era costume atender a esses desejos na colônia Nosso Lar, mas que o atual Governador havia eliminado esse tipo de coisa, após grande oposição, embora mantivesse ainda os alimentos.

Outro assunto que espanta muitos leitores é a descrição, em diversos livros, de animais no Plano Espiritual. André Luiz descreve pássaros e cães. Raymond conta que encontrou sua cadela Curly e conta que “tigres e leões ele não viu ainda; mas vê cavalos, cães, gatos e aves”.

O irmão de Raymond, Alec, vai procurar uma médium para contato com o espírito do irmão e admite que acha difícil compreender as descrições sobre o local onde estava. Raymond, extremamente paciente, explica que o lugar era “tão sólido que ainda não venci os obstáculos. Admiravelmente real.” Conta que encontrou água, mas não sabe se encontrará o mar.

Dotado de uma grande inteligência, Raymond se adianta às idéias que poderiam advir de suas descrições e diz que “gostou de ver ruas e casas” e que “em certo tempo pensei que podiam ser criações do nosso pensamento.”

Já em “A Crise da Morte” (6), de Ernesto Bozzano, uma das mensagens pertence ao espírito de Jim Nolan que descreve como foi recebido por sua avó no mundo espiritual.

“E me levou para longe dali, para sua morada. Uma vez lá, disse-me ser necessário que eu repousasse e dormisse. Deitei-me e dormi longamente…

_ A morada de que falas tinha o aspecto de uma casa?

_ Certamente. No mundo dos Espíritos, há a força do pensamento, por meio do qual se podem criar todas as comodidades desejáveis…”

Bozzano se detém um pouco sobre essa afirmação a que chama “um dos detalhes fundamentais a cujo respeito todos os Espíritos estão de acordo” e ainda complementa que “permite explicar, resolver, justificar todas as informações e descrições aparentemente absurdas, incríveis, ridículas, dadas pelos Espíritos que se comunicam, a propósito da vida espiritual”.

“Nosso Lar” é de 1944; “A Crise da Morte” de 1926 e “Raymond” de 1916, ou seja, quando André Luiz descreveu uma cidade no Plano Espiritual, essa questão já havia sido abordada há quase 30 anos e resolvida como fidedigna há pelo menos 18 anos. Como essas informações puderam ser consideradas uma “revelação” ou “fruto da imaginação do Espírito” é difícil de se compreender.

(1) Nosso Lar – André Luiz – psicografia de Francisco Cândido Xavier
(2) “Há uma revelação luisina?” Crônica publicada no Diário de São Paulo sob pseudônimo Irmão Saulo – J.Herculano Pires
(3) O Livro dos Médiuns – Allan Kardec
(4) Memórias de um Suicida – Camilo Cândido Botelho – psicografia de Yvonne A. Pereira
(5) Raymond – Sir Oliver Lodge
(6) A Crise da Morte – Ernesto Bozanno

Publicado na RIE Revista Internacional de Espiritismo
Novembro/2013

Postado por Ana Maria Teodoro Massuci, em 12/10/16, na rede Espirit Book.