O antropólogo, etnógrafo e escritor italiano Massimo Canevacci decidiu abrir mão da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, condecoração cedida pelo presidente do Brasil em homenagem a estrangeiros notáveis.

Em comunicado direcionado ao presidente Michel Temer, Canevacci faz referência à ditadura militar brasileira e justifica a decisão por não concordar com o processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Leia a carta na íntegra:

Ao Presidente da República Federativa do Brasil

Caro Temer,

Em 1994 – enquanto professor de Antropologia Cultural da Universidade de Roma “La Sapienza” – recebi o titulo de Comendador da “Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul”. Na Embaixada do Brasil em Roma, e na frente de todo o corpo diplomático, o então Embaixador Carbonara me atribuiu esta honra, que ele mesmo havia solicitado.
O Embaixador, homem de cultura, conhecia bem a minha pesquisa sobre São Paulo e, em particular, o meu livro “A Cidade Polifônica” – que continua sendo um texto básico para a interpretação da comunicação urbana.
Posteriormente, segui pesquisando as culturas nativas presentes na área do Mato Grosso, e publiquei outros livros sobre a beleza das culturas do Brasil.
Confesso que depois da votação parlamentar pelo impeachment contra a Presidenta Dilma, sinto a impossibilidade de manter este titulo. É, portanto, com grande tristeza que decido retornar esta honra ao Senhor.
Prefiro não manter este tipo de vínculo com um Estado e com um Parlamento que – após o golpe militar de 1964 – continua produzindo valores contrários aos meus princípios republicanos.
Infelizmente, o Cruzeiro do Sul esta apagado, no momento. Espero que seja apenas temporariamente.

Respeitosamente,

Massimo Canevacci