Pelo menos alguns de nossos amigos – nem todos, é certo – nos querem bem. Arrisco a dizer até que nos amam. Mas, a verdade é que nós nunca sabemos se eles nos amam e nos conhecem o necessário e o suficiente. 

E, quando nos conhecem o necessário e o suficiente, podemos perguntar: eles nos amam por nos conhecer ou eles nos amam apesar de nos conhecer? No que toca a nós mesmos, Fernando Pessoa – poeta português, sempre citado – dá a medida quase exata da cautela que se impõe com precisão a partir dele mesmo ao orar a Deus nos seguintes e singulares termos: “Senhor, livra-me de mim mesmo”. Ele não solicita a Deus ser blindado dos riscos do mundo, de per si, algo sobejamente imundo. O maior risco que há no mundo somos nós mesmo, apesar de, desde a antiguidade, os etruscos – antepassado dos romanos – terem cunhado a expressão homos lupus homini. Traduzindo: “o homem é o lobo do homem”. Afinal, como são três das mais antiga perguntas, cunhadas sobre nós mesmos: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos”? Essa indagação, que ecoa muito, continua sendo reproduzida cada vez mais. No Pórtico de Delfos, há integrante afirmação também. E em latim: “noce te ipsum”. Traduzindo: “Conhece-te a ti mesmo”. Quem pode nos amar se nem nós mesmos sabemos quem somos e nem nós mesmos nos conhecemos o suficiente?

A verdade é que sempre corremos para o futuro com os olhos postos no retrovisor. Nossas visões do paraíso – em sua maioria – não passam de projeção simples do já foi, do pretérito. E, assim, não fica configurada uma saudade apenas. Saudade não é nada negativo. Configura sua deformação – um saudosismo – quase sua caricatura.

Vicente Golfeto 
Golfeto@jornalacidade.com.br
Ribeirão Preto, 04/09/17

Nosso comentário: meu caro Vicente Golfeto, os seus argumentos são perfeitamente válidos para a época histórica em que foram concebidos. No dia18 de Abril de 1857, quando o mundo foi agraciado com a publicação de “O Livro dos Espíritos”, um livro que impõe um divisor de águas na história da humanidade – antes e depois de Kardec. Pela primeira vez, o homem sabia finalmente as respostas às três perguntas ancestrais: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Não obstante, na sua ancestral arrogância, o homem teima em não aceitar essa dádiva divina, refugiando-se em argumentos falaciosos de quimeras, ilusões, devaneios, mentiras e, sobretudo, de falsos profetas, contribuindo muito para o caos social que vivenciamos.

Alberto Maçorano